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Textos com Etiquetas ‘FICÇÃO’

Maldições 3

9, fevereiro, 2010

Leia a parte 1 e parte 2.

“E meu pai, se não me engano, se chama Nintendo…”

Era uma provocação, isso ele sabia identificar. Mesmo não sendo um pai afetuoso e presente, lembrava-se de ter assistido algumas discussões de Julieta com a mãe e de como achava graça do humor sarcástico e cruel da menina ao debochar do conhecimento materno. Era ácida, bocuda e delicada. A palavra que lhe ocorreu quando soube que era considerado menos importante que o video game foi ‘agulha’. Sim, uma espetada, alfinetada, um ponto.  Era preciso recosturar sua relação com a filha sem dedal, doeria nos dois, mas não queria perdê-la, queria ser admirado por ela, ser considerado bom pai. Sabia que ameaçá-la de morte não resolveria, teria de ser pelas vias tortuosas do sentimentalismo complicado, que nunca tinha sido o seu forte.

- Sabe? A sua mãe escolheu seu nome, Julieta… Ela quis que fosse um diminutivo do meu por que me amava muito… Sei que nunca fui..

- Ah, me poupe… Nos últimos três anos esse foi o maior diálogo que você manteve comigo. Não sabe o que dizer para me consolar? Diga que vai desaparecer da minha vida e me deixar em paz!

- Mas você tem treze anos! Está pensando que pode morar sozinha?

- Não preciso morar sozinha, mas aguentar suas irmãs insuportáveis e óbvias é mais agradável que suportar sua presença. Você sabe o que matou a minha mãe… e o que provavelmente vai me matar um dia. Eu já devo estar morrendo, aliás…

Ele não sabia o que dizer. Deixar a filha para as irmãs dele criar seria um presente para elas e uma pena para a filha, que provavelmente morreria praticamente virgem e amarga como as tias. Como salvar da tristeza a filha estando ele próprio tão condenado? Apenas observou Julieta observar o funeral da mãe, voltar para casa, entrar no quarto e trancar a porta. Decidiu que não bateria à porta para pedir que saísse, sabia que ela devia estar chorando as lágrimas que engoliu na frente de todos, para mostrar como era como ele: forte. Agora pesava tudo o que sabia sobre a filha que estava sempre ali mas nunca precisou dele. Apesar de ser o pai e nunca ter se afastado do lar surpreendia-se ao lembrar de um tio dizendo que a menina era igualzinha a ele quando menino, principalmente no gênio difícil. Lembrava o que amigos lhe diziam sobre a filha, ele realmente não sabia muito sobre ela. Lembrava do que mulher lhe contava… Sim, ela sempre falava da menina, mas ele nunca prestava muita atenção, tudo parecia sempre mais reclamação chata, cobrança de mais algum sentimento que não conseguia expressar ou dar valor.

Ela já não falava muito ultimamente, lembrou…  Será que percebeu o quanto a filha estava (ou era?) triste?

Contos

Maldições 2

28, janeiro, 2010

“Sinto muito tê-la conhecido” foi a única frase que conseguia repetir incessantemente quando a mãe de sua filha morreu em seus braços, vítima de uma doença psicossomática que a fez definhar, na mesma cama onde treze anos antes teve a noite de núpcias mais feliz que uma noiva poderia imaginar. Ela morreu triste, insatisfeita. A maldição da família a contagiou – ou ela o amava tanto que morreu por saber que jamais seria capaz de fazê-lo feliz como ele a fazia. Preferia acreditar que maldições contagiam aos que amam os maditos, doía menos do que sentir-se assassino por se deixar amar, por amá-la ao seu modo triste e insatisfeito. Apesar de toda sua amargura, ela tinha sido a única mulher que ele realmente amou, sabia que era um sujeito insuportável. Nunca entendeu o motivo pra ela se apaixonar por ele,  mas lembrava-se de ter sido grande o seu esforço por corresponder às expectativas dela. Era triste vê-lo na piscina, grande e cinzento, como uma antiga estátua de pedra, cercando sua mulherzinha sorridente e calorosa como uma flor. Era triste vê-lo anos depois satisfeito com a bebedeira num bar de última categoria e ela chorando com a filha nos braços em casa. Triste começo e fim, mas tinham uma filha, não era o fim… A menina, que ele teria de criar e era uma mocinha que ele desconhecia, tinha se afastado dele já nem se lembrava desde quando. Era bonita, ele achava… Apesar de ter herdado sua aparência de estátua de pedra, ela parecia mais com uma linda peça de Rodin enquanto ele parecia um totem.  Teria de descobrir como lidar com ela e com o medo de vê-la amaldiçoada, assim como sua mãe o viu…

“Você só é um progenitor, pai é quem cria” – foi a primeira frase que ouviu de sua filha assim que o caixão desceu na sepultura eterna que guardaria os restos de sua esposa.

Continua (OU NÃO)

Contos

Maldições

24, janeiro, 2010

Já estava começando a acreditar na lenda de que sua família nasce para ser triste, como se infelicidade fosse transmitida geneticamente e o fatalismo liderasse a iniciativa de todas as pessoas do clã. Ele não sentia-se preso ao estilo deles, apenas ao destino fatal de ser infeliz e miserável, ainda que mais por dentro do que por fora, ainda que eles não o considerassem como um igual. Ele era infeliz, ora, e não haveria de ser diferente. Sentia-se diferente de todos os que lhe eram conhecidos por ser descendente de quem era, mas também era diferente destes e herdara mais a maldição da infelicidade que qualquer outra característica. Maldições, assim como todas as mulheres da família exibiam verrugas que adquiriam vida e personalidade próprias depois dos trinta anos, assim como todos os homens tinham unhas dos pés horríveis e braços finos. Ele era infeliz como todos de sua família, ainda que não tivesse braços finos ou unhas horríveis ou fosse mulher para exibir verrugas horrendas. Cada um possuía uma vida diferente, apesar do  que era herdado geneticamente e fatalmente transmitido aos descendentes, mas quase todos que lhe eram próximos padeciam e acreditavam na maldição lançada há dezenas de gerações em um ancestral que torturou uma bruxa por ignorância e curiosidade sobre seus poderes. E, dizia a lenda, antes de ela finalmente sucumbir após muito sofrimento na mão daquele crápula, lhe disse que toda sua corja sofreria de uma insatisfação crescente, o que seria a origem de toda infelicidade e desgraça em suas vidas, e que pra sempre assim o seria… E, então, a velha morreu, e mudou de forma para transformar-se num velho pedaço de madeira podre. E o sádico ancestral sentiu-se insatisfeito como nunca antes e morreria infeliz e insatisfeito por nunca ter satisfeito a grande curiosidade que o fizera prender e torturar a pobre e esquisita velha de seu povoado,  a qual todos acreditavam ser capaz de curar a cegueira das pessoas na maioria dos casos em que a pessoa não tinha nascido com tal problema. Ele queria, por pura e egoísta ambição financeira, cobrar dinheiro para ir de cidade em cidade curando a cegueira alheia, não queria ser concorrente da velha bruxa, mas ela não lhe quis ensinar seus segredos, não admitia que ele fosse atrás de quem estava cego, dizia que só quem buscava a luz merecia ser curado e que isso não tinha preço, que era proibido vender tal poder. Velha burra, pensou ele em sua grande infelicidade e em seu leito de morte. E percebeu que burro tinha sido ele, pois mesmo sem ter tal habilidade que tanto desejou descobrir com a tal anciã, tinha conseguido o que almejava na vida, tinha dinheiro, herdeiros saudáveis e mesmo assim era insatisfeito e, portanto, muito infeliz.

E sua viúva viveu para ver dois de seus seis filhos suicidarem-se por sentirem-se infelizes, viu que nenhum dos outros quatro se dizia satisfeito ou feliz quando adulto, contou sobre a maldição aos que estavam em sua casa no dia de sua morte. Dois de seus quatro filhos que ainda viviam, nove netos e um bisneto. E a lenda da maldição foi transmitida e evitada muitas vezes entre os descendentes do torturador, alguns ramos da árvore genealógica simplesmente a ignoravam,  outros cultivavam forte fé na profecia de que todos os descendentes do torturador seriam insatisfeitos e isolavam-se do desejo, alguns viraram budistas, outros eram padres franciscanos. Muitos queriam evitar passar a maldição da infeliz insatisfação para o futuro, mas o gerador de todo esse fatalismo deixou muitos filhos e netos, muitas gerações até inventarem métodos anticoncepcionais alternativos ao celibato. Muito sangue nasceu do sangue do agressor maldito e, mesmo que ele fosse inocente, não era ignorante sobre a lenda e sabia ser da família que o criara, apesr de não ser reconhecido como tal. Também não reconhecia real insatisfação em todos seus familiares, suas irmãs sempre lhe pareceram muito satisfeitas por serem víboras em uníssono contra qualquer manifestação de felicidade, criatividade ou inteligência. Religiosas e tinham, então, todo o poder de quem interpreta mal o que lê e adapta como convém para aplicar contra algo que seja interessante, embasando o veneno em conhecimento alheio, de gente que teve coragem de deturpar a história para divinificar pessoas e fatos esquecidos. Ah, ele odiava suas irmãs, nunca sentiria-se satisfeito por ter o mesmo sangue delas. E aí identificava em si a tal maldição. Talvez fosse tudo verdade verdadeira de verdade…

Continua (ou não…)

Contos

Engolidora de semente

18, agosto, 2009

Um dia ela se lembrou do que sua avó lhe dizia: “Não engole a semente que vai nascer uma árvore na sua barriga!” – Ela não acreditou, nunca acreditou. Colocou junto com as ameaças de que seus olhos entortariam caso ela insistisse em comer se olhando no espelho, de que o homem do saco a pegaria caso ela desobedecesse e saísse pra rua e coisas do tipo. Mas quando soube que brotava ela lembrou-se do que a avó disse na hora. Talvez fosse um pé de mixirica, laranja ou tédio, mas estava ali. dentro dela buscando luz para continuar crescendo. E a única luz dentro dela vinham de suas idéias, portanto a planta crescia em direção à sua cabeça.

Ninguém percebia de olhar, ela tinha uma planta crescendo dentro dela e por fora estava tudo certo ainda. Ela descobriu quando começou a encontrar folhas pela cama toda vez que acordava. Resolveu colocar uma filmadora para pegar o sacana que colocava as folhas lá enquanto ela dormia. Vomitou duas vezes quando assistiu ao vídeo… Depois que seu corpo adormeceu, um fio verde começou a sair de suas orelhas e pareceu se abrir, parecia um galho com folhas e tudo. E crescia e aumentava até que todo seu corpo estava embrulhado por uma folhagem que dele brotava, e ela não acordava. Quando o sol nascia e seu quarto se iluminava, tudo voltava pra dentro dela sem deixar vestígios… O vídeo era uma prova e tanto de que algo incrível estava acontecendo, mas não queria que ninguém soubesse que ela era, na verdade, uma aberração.

“É um pé de mim…” Algo mágico, talvez mórbido, talvez uma grande loucura. Ela assistia ao vídeo diariamente pra acreditar, chegou a fazer outras gravações pra ver (se) como evoluía e constatou que sim… A cada noite filmada a planta ficava um pouco maior, as folhas se amontoavam pelo quarto cada vez mais, já somavam duas sacolas vagabundas de supermercado cheias toda manhã. Ela sentia cada vez mais sede e menos fome, fazia sentido ser um simbionte assim, sem grandes incômodos, sentia-se – e era realmente impossível não sentir-se – conectada com aquele “pé de mim“.

Continua…

Contos

Speeda Lunática – Parte 2

7, julho, 2009

Passou duas semanas numa clínica psiquiátrica dessas bem chiques, pois sua família não conseguia acreditar na fantástica história de como ela tinha ido parar na Islândia. Devido ao seu comportamento impulsivo e aventureiro, a família toda achou que ela tinha fugido, ou simplesmente viajado, como fizera tantas vezes antes. Carro voador, árvore gigante na lava e alienígenas eram realmente menos prováveis que um surto de “preciso viajar para não morrer de tédio…”. Já agora nem ela acreditava que tinha vivido aquilo tudo, desconfiava de sua memória e mais ainda de sua sanidade. Todos a tratavam como um bebê incapaz: “- Você tá bem, queridinha?? Quer um suquinho?” Como se falar as últimas palavras no diminutivo ajudassem alguma coisa… Ajudavam a irritá-la. Qualquer motivação serviria, ela resolveu que não queria ser a louca de verdade da família, saiu para a vida, para o que era, então, realidade… Mesmo que movida apenas pela raiva da piedade alheia.

Simplesmente não queria voltar pra vida a pé, foi até a garagem e contemplou o vazio. Seu carro ficou na Islândia. Como? Isso ninguém sabia explicar, quando a família era questionada sobre o assunto, apenas repetiam: “Ah, mas daquela ali você pode esperar qualquer coisa…” Como se isso explicasse o fato de um carro levar apenas algumas horas para atravessar o oceano. Por que a Islândia, afinal? Decidiu que iria de taxi, iria para qualquer lugar, de qualquer jeito: cinema, parque de diversão, centro da cidade, barzinho de adolescentes… queria ver vida, estar rodeada de gente real. Dentro do taxi o mundo passava rápido pela janela e imagens se formavam em sua mente, lembrava que há muito tempo não sentia o conforto de ser passageira, de se deixar levar, confiar. Desde os 18 anos estava motorizada e adorava guiar pelas estradas, principalmente em dias ensolarados como aquele. Apesar disso, estava curtindo a idéia de não estar no comando naquela manhã, observava o que se passava ao lado do carro e não só na frente, esqueceu o trânsito e se deixou levar pelas pessoas que passavam do lado de fora, as paisagens que mudavam, os alienígenas flutuantes que estavam atrás do carro… Epa!

Olhou bem para a traseira do carro. Olhou bem mesmo. Abriu e fechou os olhos várias vezes. Sim, eles estavam ali. Chamou o motorista e pediu que olhasse no retrovisor, perguntou se ele estava vendo algo estranho atrás do carro. O motorista levou um susto tão grande que quase bateu o táxi, mas começaram a voar. De novo, ela não estava acreditando. Que absurdo ser perseguida por alienígenas telecinéticos em plena recuperação de uma crise de estresse… que eles causaram, diga-se de passagem! Mas desta vez não estava só. O motorista viu também, tremia feito uma velha e gaguejava um “mmmma  mmaaa..q q qqquueee… mma mama…” Dava dó ver o estado do pobre diabo. Ela já estava mais acostumada.

Ficou supresa consigo mesma por se considerar experiente em abduções alienígenas. Realmente, aquela situação só podia ser um fim do mundo. Não poderia fazer nada além de esperar. Onde será que o carro pousaria dessa vez, antes de rumar para algum lugar remoto da realidade? Ela até tentou não perder o controle, mas era realmente difícil e, afinal de contas, inútil. Resolveu gritar para pararem, pedia para levarem-na para sua casa, que a deixassem em paz… E o taxi subia pelos ares, ela não se atrevia a olhar pela janela, não queria nem saber qual era o perigo da altura, só queria saber se aquilo teria um final e se demoraria muito. Travada no banco traseiro, ela virou o pescoço para ver os alienígenas atrás do carro, mas nem sinal dos meliantes… Se ter feito uma parada na árvore gigante plantada em lava parecia surreal, pousar num girassol gigante em um campo de girassóis gigantes também não parecia muito melhor. Àquela altura o motorista já tinha tido um treco e estava babando no volante, talvez um infarte, talvez só pânico. Ela estava só, e sabia que nem o inútil motorista acreditaria nela, ele esqueceria de tudo apenas  por que sua vida seria muito mais simples sem aquela verdade… Uma árvore, um girassol… Será que as plantas gigantes tinham alguma relação?

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Speeda Lunática

2, julho, 2009

Ela gostava tanto de velocidade que queria mesmo era pilotar aviões. E naquela manhã em que mais uma vez corria mais do que o necessário para chegar ao trabalho, se perguntava como foi parar num emprego tão burocrático. Mas tudo bem, não dava tempo de pensar muito em qualquer coisa. O trânsito estava começando a fechar em sua frente, ela gostava de tentar costurar ao máximo os carros, não gostava de ficar parada na rodovia, era habilidosa e se divertia com a travessura. Punk Hardcore no som, alto. Atmosfera adolescente da qual ela sabia que nunca seria capaz de se livrar totalmente. Fechou uma velhota que falava ao celular e dirigia um sedã como se fosse uma carroça com as rodas frouxas. Não conseguia entender o motivo pelo qual as mulheres dirigiam como…

Seu pensamento foi interrompido por uma percepção absurda: seu carro estava voando. A adrenalina subiu tanto qua quase não conseguia pensar. Em sua cabeça, aquilo era impossível. Pensou que estava morta e nem percebeu, como se tivesse sofrido um acidente numa curva anterior, morrido e não tinha se dado conta. Alucinando? Dirigindo? Será que ainda estava na pista e estava alucinando? Será que causaria um acidente de verdade? Um carro não poderia simplesmente sair voando do nada! Será que ainda estava voando ou já tinha acordado daquela viagem? Ousou olhar pra fora, pela janela, para onde deveria estar o chão. Percebeu que não estava no chão, não estava nem onde tinha começado a voar, sua mente só podia estar lhe pregando peças. Seu carro estava em cima de uma árvore enorme. Se ela se concentrasse mesmo, talvez voltaria pra realidade, talvez tudo passasse. Mas um tranco no carro fez a adrenalina subir de novo. O carro despencaria daquela altura e seria o fim. Ela precisava sair dali, mas primeiro precisava acreditar que estava acontecendo. Mais um tranco e a insólita realidade presente a convence de que sair dali é o melhor a se fazer.

Sair do carro e cair de uma árvore de uns oitocentos metros de altura. Claro, ela estava delirando, a árvore não devia ser tão alta, aquilo não devia estar acontecendo. Embaixo da árvore estava o solo mais irreal para uma planta crescer: lava vulcânica. Então recapitulou a loucura: estava dirigindo para o trabalho, seu carro começou a voar e pousou numa árvore gigante plantada na lava vulcânica. Claro que ela iria acordar a qualquer momento. Inclusive aqueles dois vultos que se aproximavam e pareciam alienígenas ordinários de ficção científica só poderiam ser alucinação. Aquela loucura toda não podia ser real… Os vultos se aproximavam, voando sobre a lava em direção ao carro. Ela estava paralisada, achava que era o fim, fechou os olhos para não ver a morte.

Batidas na janela de seu carro, ela abriu os olhos. Dois policiais do lado de fora tentavam enxergar o que se passava do outro lado dos vidros escuros. Era noite, ela estava numa estrada comum, de asfalto comum, caía uma chuva normal de gotas de água. Ela realmente viajou. Mais batidas no vidro, ela desperta novamente para o que seria a realidade, sem certeza de estar acordada de verdade, confusa por não saber onde estava, não reconhecia os uniformes dos policiais e eles falavam um idioma que ela não compreendia. Não estava de volta onde tudo começou, tentou falar com os policiais, mostrou os documentos que tinha do carro, sua habilitação. Percebeu que os policiais discutiam alguma coisa sobre seus documentos e apontavam para a placa de seu carro. Talvez eles também não entendessem o que ela estava fazendo ali. Tentou usar seu parco conhecimento de inglês para manter alguma comunicação. Entendeu que eles queriam levá-la dali, provavelmente para a delegacia, era o que esperava. Talvez ela ainda acordasse de verdade em seu lugar, sua casa, sua cidade, aquela rodovia para o trabalho…

Contos

Chocante

21, maio, 2009

Mais uma descarga elétrica e alívio. A eletricidade lhe fritando os miolos era muito relaxante para terminar um dia horroroso como aquele. E era normal, choque elétrico antes de dormir, queimaduras ao acordar e sessões de afogamento durante o intervalo entre os choques e as queimaduras, mas só se comesse toda a comida e fizesse todas as  suas tarefas. Ou ficaria sem os afogamentos. Apesar de ser caçula, e da diferença de idade para seus irmãos ser de quase cento e oitenta anos, todos moravam na mesma casa. Uma vez sua irmã mais velha e mais rebelde de todos resolveu que deveria sair de casa. Mas quando se deparou com a bestialidade do mundo lá fora, voltou correndo para o conforto de seu lar. Nunca imaginaria que pessoas fossem capaz de colher flores, comer doces, acordar durante o dia. E ficou sete anos presa, foi o único lugar que se sentiu bem fora de seu lar. Mas depois desse tempoela saiu de lá. Disseram que foi parar ali por ter martelado todos os dedos da moça com quem dividia um quarto de pensão. Ficou agradecida pela moça ter conseguido um lugar tão nojento e fedido para ela ficar, isso sim é que era gratidão de amiga! Mas quando  percebeu que os amigos fora de seu lar não gostavam de ter seus dedos martelados, voltou pra casa.

O bom filho retorna, ela era uma filha digna demais pra ser boa. Voltou pra casa, mas perdeu o gosto por martelar os dedos dos irmãos menores como gostavam de fazer antigamente. Ficou meio palerma, até roubava flores que nasciam sem querer pelo pântano que rodeava a casa e escondia no meio dos grimórios da família. Quando alguém encontrava as flores secas, ela negava a autoria. Pelo menos essa característica dela parecia estar intacta, ainda era a maior mentirosa da família. E a família queria sair em férias, viajar todos  juntos para algum lugar cheio de dor e sofrimento, onde todo mundo pudesse sofrer e agredir à vontade. Precisavam escolher um péssimo lugar, resolveram pedir sugestões  aos vizinhos… Mas antes, um afogamentozinho coletivo pra animar. Naquela madrugada fariam um churrasco de lagartixas e chamariam todos os inimigos para proibí-los de ir na viagem deles… E seria uma grande viagem…

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Manhã de uma sexta de um outono

27, abril, 2009

E ela andava pela rua. Ela existia por que essa que escreve resolveu que ela seria ela. E ela existia no mundo dela. A manhã quase fria e quase ensolarada, a rua quase molhada e ela quase bucólica… Ouvindo uma música que ela sabia que ele ouvia e pensava nela, um sorriso bobo toma conta de seu rosto e um calor arrepia seu coração. E sente que está vivendo sua vida, aproveitando seu tempo, escrevendo sua história. Um sorriso maior, quase uma risada quando se deu conta que quase nunca pediu e muito menos  seguiu conselhos, quase nunca deixou os outros saberem muito, quase nunca conseguiu culpar outro alguém. Ela era a vilã e gostava disso. Nem era tão má, ela só era mais ela. Sabia que sua panca de mulher segura incomodava, sabia que era tudo mecanismo de defesa, mas era divertido intimidar. Pensava demais e quase não se lamentava, tudo parecia que estar em seu lugar, apesar de toda a injustiça do mundo. Como respeitava o ciclo da natureza e acreditava ser ela a força mais divina que conhecia, acreditava que essa força acabaria com a injustiça. A lei do mais forte, a seleção natural, a colheita do que se plantou…  E a tal quase risada voltou ao rosto dela, e ela começou a cantar pela rua…

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Música pra googlar, né…  Beautiful Beat – Nada Surf

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Um começo

2, abril, 2009

Quando morreu, finalmente começou a viver. Por que o corpo era um tremendo incômodo, era dolorido, doente.  Não sentia mais nenhuma dor quando contemplou o que era seu corpo, sem pânico ou medo, apenas alívio. Não viu nenhum Deus, Diabo, luz ou fantasma para lhe explicar que tudo acabou. Estava só com seu ex-corpo. Não sentia mais, como se toda extensão de sua pele estivesse anestesiada. Não viu mais o que poderia fazer ali e resolveu experimentar a travessia de paredes, como viu em tantos filmes pela vida. E a coisa funcionava, dava um frio na barriga igual o de quando vivia, mas talvez fosse apenas a emoção da primeira experiência. Acordou para esse detalhe, apesar de se saber sem vida não estava sem vontade, sem emoção. Era como se finalmente pudesse sentir algo além de dor e esperança. Sentia vontade. Uma grande vontade de viver essa vida morta, a realidade do além. Ou aquilo tudo era sonho? Ou tudo era só sua mente drogada por analgésicos? A sensação era boa demais. Vida ou morte, era um começo. Aprendia que o sentir pode ultrapassar o existir, talvez só tenha sentido coisas boas quando acreditou que tinha abandonado a existência. E quem sentia não era mais o ser, era só a vontade de sentir vontade.

Sem música por hoje…

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Contagiante

16, março, 2009

Talvez fosse importante, talvez em morte seria finalmente reconhecida por ajudar o mundo, pois até agora nunca conseguiu levar os créditos de todo o  esforço. Quando teve a visão de que seu quarteirão expodiria e mataria quase todos, conseguiu convencer o terrorista a não detonar a própria vida e a de seus vizinhos se jogando aos pés dele, oferecendo-lhe o  corpo e pecado para poder chantageá-lo com a culpa. Isso o fez fugir não só da tentativa de massacrar o regime opressor do país capitalista dela, mas também a própria religião, etnia e passado. Talvez tenha sido a pior foda da vida dele.

Mas ela viu a própria morte e o que significava? Quando previu que ficaria doente, conseguiu evitar que toda água da cidade fosse contaminada em um acidente entre dois caminhões: um que transportava resíduos radioativos e o outro lixo hospitalar. O lixo da colisão escorreria na chuva até o rio que abastecia a estação de tratamento, e as doenças resultantes seriam totalmente desconhecidas. Mas ela conseguiu atrasar um dos caminhões furando os quatro pneus, o que garantiu que o tempo necessário seria dado para o outro caminhão chegar seguro com o lixo inseguro.

Se ela se contaminasse, perderia a imunidade da visão. Por isso vivia tão sozinha, por isso nunca criou laços. Mas sabia que o fim estava próximo, seu fim. Não que fosse uma surpresa antever o que aconteceria, mas sentia que aquilo era uma  ingratidão do destino. Ela, que para poder ver e saber sobre tudo e todos,  nunca tinha vivido a própria vida. Uma heroína caída, desconhecida e muito infeliz… Um capricho da vidência? Por que sua morte era importante?

Se ver no momento derradeiro foi assustador não pelo sangue seco que manchava aquele vestido todo, nem pelos cortes por todo seu corpo e a dor que viu que sentiria, mas por estar só . Morrendo sozinha, sem nenhum ser vivo para sentira sua falta. Talvez nem ser morto sabia de sua existência. A que ponto chegou sua vida? Ao ponto da morte… Sim, todas as vidas acabam, mas quase ninguém pode dizer que viu a morte. E talvez ninguém mesmo mereça um fim tão melancólico. Por que não poderia ter visto sua morte numa festa no clube das mulheres? Talvez por que nunca tinha tido coragem de visitá-lo. Mas já que sabia do fim que se aproximava, sacou umas notas do banco e saiu de casa decidida a enfiá-los numa cueca bem recheada…

Musique du jour: Where did you sleep last night – Nirvana

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