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Textos com Etiquetas ‘FICÇÃO’

O desespero

20, julho, 2010

Ela estava grávida de cinco meses e o avião caiu perto da Cordilheira dos Andes. Milagrosamente, ela e o marido tinham sobrevivido a queda, o bebê parecia estar bem dentro da mãe, precisariam vencer a natureza e conseguir ajuda, alguma maneira de sair do gelo e encontrar abrigo, comida. Ambos estavam chocados com a queda, com os mortos, não havia outros sobreviventes, precisavam pegar imediatamente o que fosse possível no avião e encontrar uma maneira de fugir do frio cortante e ameaçador. O medo de o avião explodir fez o casal se apressar e buscar abrigo um pouco mais distante do que sobrou do acidente, andaram sobre o gelo até uma área de terra que parecia isolada na imensidão branca, ao longe podiam avistar outras manchas no gelo, que deveriam ser outras áreas com terra. A sede e o cansaço começaram a dar sinais. E o desespero dominou os dois. Andaram ainda mais…

Muito tempo depois avistaram um abrigo que parecia abandonado há séculos, uma pequena guarita com menos de quatro metros quadrados e com o telhado em péssimo estado, encontraram trapos nojentos e tentaram se aquecer juntos, enquanto esperavam por mais forças para prosseguir. Ela, grávida, não poderia ir muito longe. Ele pensou que caso se perdesse no caminho, condenaria o filho por nascer e sua mulher à morte. Quando o frio diminuiu, adormeceram por algumas horas. Ao acordarem, o marido decidiu que era melhor voltarem ao avião para tentar achar água e alguma coisa para comer. Andaram por horas e não conseguiram encontrar o avião, o medo de também não conseguirem reencontrar o abrigo tomou conta de ambos, quase sem falarem um com o outro, andavam teimosos rumo ao que esperavam ser o lugar certo. Era quase noite quando encontraram novamente a guarita. Poderiam derreter neve para beber, mas a fome os mataria. Não tinham como caçar sem armas e sendo tão urbanos, a mulher ponderava que se o marido resolvesse sair para buscar ajuda, ela estaria condenada à morte com seu filho caso ele não voltasse. Ela tinha encontrado uma faca razoavelmente boa no avião que escondeu em sua roupa para o caso de uma necessidade, como o caso de precisar persuadir o marido a não deixá-la sozinha e procurar ajuda.

Não demorou que ele tocasse no assunto. “Seria melhor ele ir sozinho, ela precisava poupar energias por estar grávida” e tudo mais… Ela não queria ser deixada para trás e morrer junto com o filho que nem nasceria, enfiou a faca na garganta do marido “Me desculpe, meu amor… mas assim você vai cuidar melhor de nós…” foi o que ela falou ao encarar os olhos esbugalhados do marido. Esperou ele parar de se mexer e começou a tirar as roupas do corpo, precisava comer e já o tinha matado mesmo, melhor a fazer era não deixar estragar. Precisava lavar e cortar os pedaços para conservar no gelo, era uma tarefa trabalhosa e triste, afinal era a carne de seu marido amado e gordinho… Pensava que poderia ficar ali por meses, talvez anos, precisava de forças para sobreviver e tentar criar seu filho, com o tempo conseguiria caçar alguma outra coisa, lembrava de tantas histórias que conheceu de mães que superam tudo pela sobrevivência, respirava fundo e tentava esquecer que tratava-se das costelas do seu benzinho.

Estava separando a coxa esquerda da panturrilha quando ouviu um barulho perto da guarita, temeu que algum grande animal tivesse sentido o cheiro de sangue, se escondeu no canto e esperou em silêncio e então ouviu vozes humanas bem próximas de seu abrigo, não teria o que fazer… Foi o tempo de se levantar e viu o abrigo ser invadido por dois homens e uma mulher de uma operação de resgate ao acidente do avião. “Nossa, vocês foram longe… vimos rastros perto do avião e sabíamos que havia sobreviventes, estivemos aqui perto antes e não encontramos vocês, tem mais alguém com você, né?” E ela nem sabia o que responder, se apenas tivesse esperado mais um pouco… Então um dos homens reparou no sangue que tomava a guarita toda e nos pedaços de gente que pareciam empilhados perto do que seria uma pia. “Nossa senhora! Você deve ter pensado que nunca seria resgatada, né?” E uma longa pausa seguiu-se, onde todos encaravam a mulher sobrevivente, que tornara-se assassina canibal num piscar de olhos, esperando alguma explicação. Meio catatônica, a mulher afirma com a cabeça. “HAHAHAHAHAHA, que absurdo! E aí? Vocês acham que vão acusá-la de assassinato? HAHAHAHAHA! Mas, me diga uma coisa, senhora… A senhora gostaria de comer, já que matou e se preparou pra isso – e também, a senhora sabe, né, vai ter de responder por isso?” – disse o homem com um largo sorriso, como se estivesse acostumado a encontrar casais que sobrevivem a desastres e se matam como animais.

Música para clima ‘macabray’: Die, Die my darling – com Metallica (apesar de ser do Misfits, mas é melhor com o Metallica, podem conferir…)

Contos

A diferença entre brigar e lutar

1, julho, 2010

Certo dia, Fefê discordou da opinião de Lalá num fórum e investigou de leve sobre o mesmo. Fefê descobriu que Lalá se tratava de uma pessoa educada numa renomada instituição onde apenas pessoas ricas frequentavam, que era de tal religião e tinha passado por  dois divórcios, sem filhos. Fefê resolveu escrever uma resposta no fórum que, em vez de expressar argumentos contrários à opinião de Lalá, sobre o assunto do qual discordara, lançou comentários jocosos sobre a vida de Lalá como forma de justificar a ‘errônea’ opinião do mesmo.

Lalá ficou puto da vida quando leu o que o Fefê tinha dito sobre o que ele escrevera e, principalmente, sobre os motivos que o fizeram escrever aquilo. Achou um absurdo o Fefê divulgar que ele defendia a causa por ser de tal religião e não ter filhos. Lalá resolveu investigar um pouco sobre o Fefê e descobriu que era um homem de estatura baixa e que sempre usara bigode, casado pela segunda vez e que tinha três filhos, se dizia agnóstico e gostava de escrever para falar mal sobre eventos sociais. Lalá resolveu que escreveria algo contra a opinião de Fefê, mas acabou embasando sua escrita em argumentos tão baixos quanto os de Fefê, dizendo que este tinha complexo de inferioridade e vivia no caos da rotina de classe média que só poderia fomentar mediocridades.

Fefê quase comeu os pentelhos do rabo tanta era a raiva que sentia quando leu o que o Lalá escrevera sobre o fato de ele ter discordado de sua opinião. Tomou-o então por inimigo pessoal, mesmo sem nunca terem falado pessoalmente. Fefê resolveu investigar e acompanhar o que Lalá fazia e atacá-lo sempre que via uma oportunidade. Lalá, por sua vez, fazia o mesmo e ambos sentiam muita raiva mesmo um do outro, metiam o pau para os amigos e estes colocavam lenha na fogueira afinal, no dos outros, é refresco…

O artigo inicial sobre o qual discordaram foi esquecido. Por princípio, um passou a discordar do outro sobre tudo, de maneira irracional, só para ter um motivo para ataque e os argumentos apresentados para as opiniões divergentes sempre eram embasados nas particularidades das pessoas, raramente em fatos.  Um espetáculo circense para quem admira a violência gratuita, a intolerância, o mundo cão. E seguiram por anos assim, ridículos, sem nunca se conhecerem de verdade, se atacando como cães que não sabem conversar e tão mergulhados na vaidade que me cansaram de escrever esse conto… Quero é que Fefê e Lalá se fodam. A diferença entre brigar e lutar é que briga é por qualquer coisa, a luta sempre é por algo.

Contos

Junie

17, maio, 2010

Ele, era do sexo masculino agora e então vai. Andar de um jeito bruto e fazer um olhar meio fechado, uma cara meio sacana para dar um ar de segurança, ‘eu sou o cara!’ – pensou. E forçou uma risadinha meio torta enquanto ajeitava a franja para o lado. Andava sob o Sol frio de jeans, camiseta azul, tênis e mochila ‘black hole’. Buraco negro, o que queria dizer com o nome pelo qual tinha batizado e rabiscado pela sua mochila, significava que tudo o que ele colocava ali se perdia. Era realmente uma mochila cheia de coisas… E sob o Sol ele ensaiava seus primeiros passos de homem rumo ao desconhecido terreno da maturidade. Ainda que fosse uma mulher, ela queria ser o cara. Reinventar a donzela guerreira não era uma necessidade, apenas uma imensa vontade de se ver livre do peso divino de ser fêmea.  Sabia que a farsa não duraria muito tempo se deixasse as pessoas chegarem muito perto. O frio deixava o tempo limpo e o céu estava muito azul quando olhou com receio para a rua onde sempre acompanhava suas irmãs nas compras e  festas, sentiu um nó na garganta quando pegou um ônibus para o centro da cidade, onde ninguém o (re) conhec(er)ia.

Não tinha sido seu o estupro, ninguém diria que foi estupro na época em que sua linda irmã apenas um ano mais nova se casou com o filho de um rico comerciante para calar a boca maldosa de rivais invejosas, que a difamaram por ser linda e ter vários pretendentes apaixonados. Seus pais preferiram acabar com a possibilidade de Beliz não se casar com o que havia de mais rico, já que ela se mostrava apaixonada por um jovem primo distante cuja família tinha a mesma condição financeira que a sua. Ver Beliz chorar e sangrar e chorar por saber que teria um filho saindo de suas entranhas e chorar por apanhar por ser bela e chorar por não ter qualquer defesa e chorar. E ver sua mãe chorar por saber que a filha perdera a inocência por culpa da maldade alheia sem ter forças para defendê-la, ver a irmã mais velha chorar por se achar rejeitada por ser gorda e ver os homens sorrindo livres, gordos, intocados…. Decididamente não queria chorar.  Seria mais  forte do que qualquer homem comum, pois seria um homem à força.

Contos

Bom brasileiro

8, maio, 2010

Eustáquio era um infeliz por várias razões, mas nenhuma era maior do que sua vontade de ser um miserável. Talvez sadismo, gostava de ver aqueles que  o amavam sofrer por sabê-lo infeliz. Talvez masoquismo, podia ser que gostasse mesmo de ser um miserável… Sua aparência era medíocre e pouco atraente, sabia que tinha cara de palerma, mas a juventude e sua calvície ainda não concretizada permitiam-lhe forjar um estilo talvez`charmoso`, com tal óculos ele parecia tal famoso feioso mas… famoso – o estilo bonitão tinha ficado em sua infância de cabelos dourados e bochechas rosadas.

Eustáquio vivia insatisfeito, nada era bom o suficiente pra ele, nenhum amigo chegava aos seus pés, todos o invejavam, o perseguiam, todos eram indignos de sua bondade, incapazes de compreender sem que ele mostrasse o caminho. Ele gostava de provocar discussões para se aparecer, vomitar autores para demonstrar autoridade, ainda que nada tivessem de relação com o assunto. Adorava quando acreditava ser o centro de um debate, quando conseguia pegar uma contradição de um interlocutor para submetê-lo ao constrangimento, se autoafirmava em qualquer mínima oportunidade. Atacava e vivia na defensiva, pela frente com pompa e cerimônia exigida pelo verniz social, pelas costas sempre que achava oportuno. Eustáquio sentia gana de viver qualquer coisa que não fosse a mesma coisa depois de algum tempo. Desejo de filho único mimado, que carregava o nome do avô e o fardo de ser a esperança de sobrevivência de uma raça que, depois de ver o pirralho nunca crescer, sentia-se satisfeita por estar em extinção…

Eustáquio, um dia, teve uma idéia brilhante, para ele… Estava andando pelas ruas com seu carro de menino classe média quando viu um cartaz irregular imenso, que fazia campanha de um político “Epaminondas Sobral, um cara pra lá de legal!” Seu primeiro impulso foi o de reclamar da falta de fiscalização que acontece em época de eleição. Falta de fiscalização geral, poderia-se roubar, depredar, anunciar… Ninguém veria, afinal, políticos não querem se indispor com o público nessa época.E o público era apático, merecia essa sujeiro, no fim das contas. “”Esse Epaminondas deve ser um filho da puta… Também, com um nome desses…” pensou.

E, então, luz da sapiência,  Eustáquio se deu conta de que só lhe faltava aceitar o dom divino que possuía desde sempre.  Falava demais, errava mais que demais, se importava de menos, seu caráter era totalmente duvidoso e tinha um nome bem ridículo. Tudo o que lhe faltava era um partido para ser, afinal, da nata do que se conhece por bom brasileiro - aquele que nem rouba e nem produz. E, ainda por cima, seria considerado `autoridade`pela maioria… “Bando de ignorantes!” – ria o pensamento ardiloso de Eustáquio…

Contos

Mapas

1, abril, 2010

Eu era intrigado com um professor de Geografia que tive na sexta série, Luiz Cláudio, um grande cara em vários sentidos, quase dois metros de altura e uns oitocentos quilos. Suas aulas eram bem interessantes, ele tinha viajado muito e gostava de explicar as aplicações práticas dos conhecimentos que transmitia, contava detalhes que não estavam nos livros sobre lugares históricos, cultura regional, comidas típicas e pedia mapas, muitos mapas. Toda semana a gente tinha de entregar pelo menos dois mapas. Mapa das capitais estaduais, mapa hidrográfico, mapa do relevo de cada região brasileira, separadamente, numa folha vegetal. Mapa mundial, mapa da América Latina, acho que só não pediu pra gente copiar o mapa da África e Ásia porque tais lugares não estavam na programação curricular da sexta série. Não entendia como um professor aparentemente inteligente mandava sua turma copiar mapas em papéis avulsos. O que ele fazia com tanto mapa? Admito que a atividade ‘decoreba’ me ajudou a nunca fazer feio quando se fala sobre os estados, capitais, onde fica o quê, mas detestava a lição.

Mas, dia desses, encontrei o professor num restaurante do centro. Eu já comi lá algumas vezes, mas por excesso de opções não costumo repetir o lugar. Não sei se ele sempre vai nesse restaurante, mas me pareceu ser bem conhecido dos garçons. Quando o reconheci numa mesa ao lado da minha, fui impulsivo e soltei um sonoro ” – Professor Luiz Cláudio?”. Ele me olhou por cima dos óculos idênticos ao que usava há 15 anos. Abriu um sorriso e disse francamente “- Olha, eu lembro do seu rosto, mas não lembro mais o seu nome. Você estudou comigo no Almirante Favorino, né?”. Fiquei comovido por ele se lembrar, sentei-me em sua mesa assim que me convidou e começamos a conversar. Ele me contou que está aposentado há, sei lá, um tempão, mas que ainda faz viagens para conhecer novos lugares, disse que está viúvo e agora vai quase sempre sozinho, seus filhos trabalham muito e tal.

Lembramos dos tempos do Almirante, do terrível diretor Neto – que ele me revelou ser um gay que adorava rir dos alunos apavorados na sala dos professores, falamos da vez em que ele chegou na aula com sapatos despareados e das maçãs que ele comia durante a aula mesmo, de como ele era legal por ser um professor que conversava e dava risada com a gente, levava a turma para conhecer sobre pedras no terreno da escola, ele pareceu muito orgulhoso de ouvir isso de um aluno. Aí eu toquei no assunto dos mapas, tentando descobrir o motivo de tal atividade ser tão usada por ele em aula. “E o senhor gostava muito de pedir mapas, né? Mapa de climas… Sempre pensei em quatro climas definidos pra todo lugar que tem: Quente e seco, quente e úmido, frio e seco, frio e úmido… e, do jeito que está hoje em dia, não adiantou decorar tudo.” Ele me olhou e deu uma risadinha sacana, a gente já estava na terceira cerveja e senti que, enfim, descobriria a didática por trás da perpetuação de tal conhecimento.

Ele deu um gole na cerveja e falou: “Quantos mapas você fazia pra mim por semana?” “Uns dois ou três” – respondi. “Uhnn… é, vamos dizer que em sua sala tinha mais ou menos 25 alunos, certo? Dá uma média de cinquenta a setenta e cinco folhas por semana, mais ou menos dez por dia…” Eu não entendi o raciocínio, pra quê ele poderia querer mais ou menos dez mapas por dia. “Sabe? Eu fazia uma bela grana extra, acho que posso te contar hoje, já faz 15 anos! Acho incrível como ninguém nunca suspeitou…” A esse ponto eu estava altamente intrigado, quem compraria mapas desenhados – e mal desenhados, na maioria das vezes? Só se fosse para reciclagem, coisa que nem era moda na época. “Como assim? O senhor reciclava todo o papel daqueles mapas? Nem quinhentas folhas por semana renderiam algum dinheiro que valesse a pena… Então aquele monte de mapa que a gente levava horas copiando foi para o senhor reciclar?”. Ele deu outra risada sacana e, enfim, revelou o mistério… “Espero que desenhar tanto mapa não tenha sido tão traumatizante assim… Hahahaha… Foi?” “Não é isso, é que me parecia um absurdo, inútil, sei lá… não parecia que eu estava aprendendo muito com aquilo.” Então ele falou “É, eu sei que não era uma atividade muito prazerosa, mas eu sabia que ocuparia o tempo de vocês e isso é o que criança mais precisa, ter seu tempo tomado por alguma atividade… e eu tinha certa preguiça de pensar coisas muito elaboradas para pedir e depois corrigir. Não era só para atazanar, na verdade… O dinheiro extra que fiz foi de uma sacada que tive numa tarde, eu anotava no livro de notas os pontos dos alunos que entregaram o mapa como pedi e estava preparando um baseado… Aí, vi que não tinha seda… Os mapas estavam, a maioria, em papel vegetal. Usei o pedaço de um para bolar o meu e pensei: já que não tenho o que fazer com esses mapas, nem as crianças, vou vender essa seda! Foi o maior barato! Hahahaha!”

Tudo o que eu consegui dizer durante uns oito dias foi: caralho…

Contos

Maldições 6

30, março, 2010

Ela fez o escândalo ensaiado quando chegaram a um hotel na beira da estrada e sentiu na própria pele o que sua mãe deve ter sentido se algum dia brigou com o pai. Ele a encarou friamente, como se olhasse através e visse algo maravilhoso. Apenas observava, como se ela não estivesse realmente ali, se esgoelando. Ela gritou que queria ir para casa das tias durante quase quinze minutos, pessoas se aproximaram para ver uma garota gritar com um adulto quase velho e se afastaram quando perceberam se tratar de filha e pai. Ela sentiu esperança de que o tinha atingido quando as pessoas se aproximaram, esperava que ele se sentisse constrangido com o vexame, mas nada… Impassível, zen, autista, maldito.  Ela ameaçou dormir no carro e ele argumentou que tinha um quarto para cada um. Ela gostou da idéia de poder ficar sozinha durante a noite toda num quarto de hotel, onde nunca tinha estado antes. De cara feia e pisando duro à caminho da recepção, se calou. Ficou pensando se ele sabia que ela estava fingindo… Sentou numa poltrona e não respondeu ou olhou para o pai quando este lhe estendeu a chave de seu quarto. Ele se aproximou e lhe beijou na cabeça, disse que estaria no quarto ao lado, colocou a chave em seu colo e saiu. Quarto 38…

Quando ela se viu sozinha com um frigobar abastecido de bebidas e uma noite toda pela frente resolveu que beber não era grande coisa e, se tantos o faziam e sobreviviam, ela seria capaz de aproveitar só o que havia de bom na experiência. E quase vomitou depois do primeiro gole do que a garrafa dizia ser whisky, achou que mais parecia algum produto de limpeza, mas insistiu misturando com refrigerante e o segundo gole foi menos horrível. Seus pensamentos estavam voltados para o homem no quarto ao lado…  seu pai, que poderia acompanhá-la num drink se não fosse um bêbado… ela não, ela sabia que não devia beber muito… beber e ficar bêbado eram consequências, mas muitas pessoas bebiam e nem todas ignoravam sua família ou eventualmente acordavam nuas no quintal de casa depois de serem espancadas por invadirem a residência alheia, bêbados…

Ela bebia e sentia que nesse momento poderia ir até o quarto dele e lhe dizer que precisava aprender a beber, pois era um idiota… E ria sozinha se imaginando dizendo pra ele, na cara, o quanto ele era idiota por não saber beber, por não saber se controlar. Ria e bebia ensaiando sermões que daria no pai. E ficou bêbada com um quarto da garrafa, comeu salgadinhos, assistiu à TV, dançou, ligou para sua única amiga e falaram por duas horas, tomou todos os refrigerantes disponíveis, vomitou e adormeceu no banheiro.

Quando acordou, se deu conta do que tinha feito e de que seu pai saberia o que ela tinha bebido na hora de pagar a conta. Pensou numa saída, mas era tarde demais para tentar sair e comprar outra garrafa e colocar no lugar. Quando seu pai bateu à porta, gelou, gritou que precisava tomar banho porque tinha acabado de acordar, precisava de tempo. Ele esperaria e, assim que ela se deu conta disso, foi tomada pela idéia de que ele jamais poderia lhe repreender, ele era apático e um péssimo exemplo, sobretudo nesse caso. Tomou demoradamente seu banho, saboreando na imaginação as situações possíveis caso ele lhe disesse alguma coisa… Talvez ela desejasse isso. Deu-se conta de quão triste era ansiar por um conflito e, com um sentimento gigantesco de dúvida e peso no peito, chorou por algum tempo deixando a água cair na cabeça silenciando todo o resto… Seu pai bateu à porta novamente, ela levou um susto e fechou o chuveiro.

Contos

Maldições 5

3, março, 2010

Ele não poderia tolerar aquele comportamento, para o bem da própria filha teria de impor sua vontade. Ainda que não soubesse como continuar criando uma moça, ainda que nem soubesse ser o pai que ela precisava. De jeito nenhum queria ver a filha triste a amaldiçoada, pensava em fugir da cidade assim que o caixão de sua esposa desceu a sepultura, não sabia onde queria ir ou o que fazer, mas sentia que a jornada lhe mostraria o caminho… e sentia uma estranha força de vontade crescendo no peito, formada pelo ódio que sentia da própria história e destino.

Sua casa era toda de sua esposa, cada detalhe para o qual ela havia lhe chamado a atenção em busca de aprovação agora gritava a culpa de sua indiferença. Os retratos em cima de vários móveis mostravam os bons primeiros momentos da família, que foram ficando cada vez mais raros. A última fotografia de todos juntos era de cinco anos atrás e ninguém estava muito sorridente, lembrou-se do dia em que foi tirada – ele estava de ressaca e tinha passado a manhã inteira trancado com suas quinquilharias no sótão e só depois que a esposa insistiu muito, por horas seguidas, resolveu sair e dirigir até o estúdio que a mulher tinha reservado horário, chegaram quarenta minutos atrasados e ela chorou ao se desculpar muito constrangida com o fotógrafo. Ele lembra de ter pensado que ela estava menstruada e insuportável…

A colcha artesanal feita para cobrir o sofá que ainda parecia novo, tamanho o zelo que ela tinha pelas coisas, as porcelanas no armário sempre em ordem, a cozinha sempre com um cheiro de pimenta… Não aguentaria viver sob o teto de toda a estupidez cometida. Pegou duas grandes malas e colocou quase toda sua pouca roupa em uma e todas as caixas de ‘bobagens sentimentais’ de sua esposa em outra, sabia que numa dessas caixas encontraria alguma resposta para lidar com a filha. Não sabia bem como convenceria a garota a arrumar as malas e partir com ele, mas decidiu investir na presumida autoridadede paterna e agir como o maior interessado no bem estar dela. Nem que tivesse de arrastá-la pelos cabelos.

Depois de pensar em como falaria com a menina e ensaiar várias abordagens enquanto arrumava suas coisas, parou na frente da porta do quarto dela. Passava por ali algumas noites e a via dormindo,  sempre prometia a si mesmo que no dia seguinte a levaria para um passeio, mas nunca se lembrava da promessa quando a ressaca o despertava e terminava o dia em mais uma bebedeira com os amigos ainda boêmios por que eram feios demais para arrumar uma esposa ou por que se descobriram cornos precocemente. Ir embora siginificava abandonar a vida de Julian, o fanfarrão pinguço que tocava gaita toda noite na banda do boteco “Os Irremediáveis” – nome intragável, idéia do pau mole do Ivan que sempre tinha as piores idéias. Abrir aquela porta significava sair daquela vida, sabia que não haveria volta.

Abriu a porta e as malas da garota estavam prontas, realmente. Ela não parecia surpresa de vê-lo, apenas quando viu as malas dele é que se deu conta de que não iria pra casa das tias. Fingiu que não sabia, por dentro explodia de felicidade por saber que o pai não queria abandoná-la, mas não queria demonstrar a satisfação. No fundo, ela achava que isso era o mínimo que ele poderia fazer, não abandoná-la como fez com sua mãe. Se perguntava se conversariam durante a viagem, jurou que não puxaria assunto. Por mais que a curiosidade a corroesse, não perguntaria para onde seguiam e armaria uma grande cena assim que chegassem em qualquer lugar, para que ele pensasse que ela queria mesmo ir para a casa das tias.

Ela sabia que ele queria se aproximar, mas decidiu que não seria idiota e boazinha como sua mãe, que o amava por escolha. Ela o amava por falta de opção, era o pai que conhecia, não era bom, mas já tinha ouvido sobre pais piores. E acreditava que esse amor fosse recíproco da mesma maneira, que ele só lhe amava por obrigação. Então não o agradaria e não se deixaria enganar, se ele quisesse provar ter qualquer valor teria de se esforçar. Teria de merecer sua atenção.

Ele se preocupava em não ser um maldito infeliz, ligou o rádio do carro para distrair os pensamentos de caos e insegurança sobre o futuro. Assim como gerações ignoraram a maldição na esperança de escapar, ele tentaria viver o mais normal e alegremente possível. Longe da família maldita talvez pudesse recomeçar e, talvez, descobrir uma maneira de fazer sua filha feliz.

Contos

Maldições 4

17, fevereiro, 2010

Aflito por querer estar mais próximo de uma filha presente e tão distante, ele apenas observava. Tentava não se abalar ao conhecê-la, ao enxergar nela a crueldade de suas irmãs e a beleza de sua falecida esposa, ao saber que era mais que menina moça e que já tentava seduzir homens mais velhos para conseguir favores ou apenas se divertir, ao perceber que o orgulho da filha era só mais um artifício que usava para puní-lo… Mas não era suficiente. Ela, com certeza, iria mais longe se tudo continuasse como estava e ele não fazia a menor idéia do que fazer para impedí-la, nem se deveria ou  se conseguiria. A garota se aproximava das tias, pois percebeu que isso o incomodava… Não que gostasse das velhas, muito pelo contrário. Detestava as intrigas das conversas, percebia um grande despeito e muita inveja em todas as observações que faziam sobre a vida alheia, sabia que eram infelizes. Dira, a ‘múmia mais velha’ era uma viúva feliz. Só feliz por ser viúva, pois adorava ser alvo da piedade alheia. Fazia bem o papel de pobre e pequena velhinha viúva e sem filhos, adoecida pelo esquecimento e presente em todas as ocasiões alheias de indiscrição. Tinha ficado viúva aos trinta e cinco anos e nunca mais se casou, seu falecido tinha se suicidado depois de perceber que nunca estaria livre da maldição que significava estar com aquela mulher. Deni, a ‘múmia mais nova’ era uma cópia maior de Dora, e sempre era lembrada pela irmã de que tinha pernas gordas de leitoa. Ambas eram a personificação da engenhosidade humana para intrigas e ninguém escapava delas sem responder alguma pergunta pessoal como se fossem suficientemente íntimas para tal ousadia.

Ora, duas velhinhas quase inofensivas. Suas intrigas já tinham destruído vários casamentos, as crianças eram proibidas de brincar fora de casa depois que ‘elas’ convenceram o pároco de que sujeira era coisa do demônio, todos os namoros eram observados de perto pela dupla, através da igreja conseguiam infernizar um número grande de vidas e pareciam gostar muito disso. Ele realmente acreditava que suas irmãs gostavam de fazer o mal, que não havia qualquer boa intenção no fundo de suas atitudes mesquinhas, não que ele se achasse muito melhor, mas pelo menos não estragava tudo de propósito. A filha sabia que ele detestava as irmãs e entendia os motivos, mas queria ferir o pai. Dois dias se passaram e a filha anuncia, enfim, que não quer ficar mais com o pai, que pretende ir embora para a casa das tias.

As tias se olham, olham para o pai e Dira fala: “Não queremos nos responsabilizar por uma perdida que quer ser como os homens… Nem saia você usa, só anda com machos e só vai à igreja aos domingos, como sua falecida mãe, por obrigação. Vai morrer que nem ela, doente de tanto ser usada por um homem infiel…”

Julieta não levantou o olhar, como se estivesse apenas complementando o que ouvia, disse: “E também não quero acabar seca como uma lésbica enrustida… que acabou com a vida da irmã e do marido para infernizar mocinhas que usam saia e que, raramente, tem a chance de tocar em alguma… Vou com vocês porque vocês sabem que isso será o pior pra ele e é o que todas nós queremos, não é mesmo? Não precisam confirmar, coragem é uma virtude e vocês não possuem nenhuma… E se insistirem em discordar, vou sair contando o que sei sobre as aulas para moças e sobre o caso da Deni com o retardado do irmão do coveiro…

“Oh, isso é uma ameaça, mocinha? Você realmente merece e precisa de uma punição corretiva… Isso é linguajar de uma Jezebel na Babilônia! Não deve nem ser mais donzela por dizer coisas tão impuras!”

“Ah, não, não, não… Isso não é uma ameaça, é uma promessa. Minhas malas estão prontas. Por que vocês ainda estão aqui?”

Contos

O Sol

13, fevereiro, 2010

Ele era alto, alto demais. Alto e branco demais, olhos injetados, cabelos raspados, camisa de força…

Mas o motivo de sua vertigem, de não conseguir olhar em hipótese alguma para baixo não se dava pela estatura, mas por sua pele… branco, branco, branco, ficava tonto com tanto contraste aos seus pés, daí se prendia, tentava ser imóvel, reto… para não enlouquecer, usava a camisa de força.

Estava ali há meses, nem se lembrava mais o motivo, só sabia que tudo piorava, sua cor piorava, seus olhos ainda enxergavam as cores que ele não tinha, já tinha tentado se cegar mas não queria morrer, só queria deixar de ver o contraste. E ver do alto era uma maldição, se ele ao menos pudesse emitir sua luz, mas nunca mais…

O vislumbre do que o cercava seria igual a sensação primordial do abrir de olhos pelas manhãs, porque nem toda luz do mundo poderia mostrar àqueles que dividiam os espaços ridículos como o que se encontrava agora, que ele não era nada do que se via, nada do que viam, ele era o Sol, ele sabia.

Por alguma razão maldita estava na condição humana, por algum motivo os dias ficaram sempre nublados e frios, mas ninguém se deu contade  que o Sol estava preso. E estava enlouquecendo, esquecendo que tinha de brilhar, esquecendo que estava acima por alguma razão. Talvez se ele soubesse como foi parar ali…

Sabia…  Quase sabia… Era voluntário eclipsar-se, iluminar o lado negro, a face escondida do mundo… buscar esconder-se o quanto podia nos corpos que o cercavam no universo.

Tentando buscar seu lado negro é que tinha acabado nessa condição, uma aventura por existências e encontrou na humanidade um ponto intrigante de fraqueza: o desejo. E aprendeu a desejar não mais como senhor soberano do sistema, mas como ser limitado na vida. Não podia mais alcançar meio mundo com sua luz, não conseguia sequer ser ouvido pelos que o cercavam…

Contos

Maldições 3

9, fevereiro, 2010

Leia a parte 1 e parte 2.

“E meu pai, se não me engano, se chama Nintendo…”

Era uma provocação, isso ele sabia identificar. Mesmo não sendo um pai afetuoso e presente, lembrava-se de ter assistido algumas discussões de Julieta com a mãe e de como achava graça do humor sarcástico e cruel da menina ao debochar do conhecimento materno. Era ácida, bocuda e delicada. A palavra que lhe ocorreu quando soube que era considerado menos importante que o video game foi ‘agulha’. Sim, uma espetada, alfinetada, um ponto.  Era preciso recosturar sua relação com a filha sem dedal, doeria nos dois, mas não queria perdê-la, queria ser admirado por ela, ser considerado bom pai. Sabia que ameaçá-la de morte não resolveria, teria de ser pelas vias tortuosas do sentimentalismo complicado, que nunca tinha sido o seu forte.

- Sabe? A sua mãe escolheu seu nome, Julieta… Ela quis que fosse um diminutivo do meu por que me amava muito… Sei que nunca fui..

- Ah, me poupe… Nos últimos três anos esse foi o maior diálogo que você manteve comigo. Não sabe o que dizer para me consolar? Diga que vai desaparecer da minha vida e me deixar em paz!

- Mas você tem treze anos! Está pensando que pode morar sozinha?

- Não preciso morar sozinha, mas aguentar suas irmãs insuportáveis e óbvias é mais agradável que suportar sua presença. Você sabe o que matou a minha mãe… e o que provavelmente vai me matar um dia. Eu já devo estar morrendo, aliás…

Ele não sabia o que dizer. Deixar a filha para as irmãs dele criar seria um presente para elas e uma pena para a filha, que provavelmente morreria praticamente virgem e amarga como as tias. Como salvar da tristeza a filha estando ele próprio tão condenado? Apenas observou Julieta observar o funeral da mãe, voltar para casa, entrar no quarto e trancar a porta. Decidiu que não bateria à porta para pedir que saísse, sabia que ela devia estar chorando as lágrimas que engoliu na frente de todos, para mostrar como era como ele: forte. Agora pesava tudo o que sabia sobre a filha que estava sempre ali mas nunca precisou dele. Apesar de ser o pai e nunca ter se afastado do lar surpreendia-se ao lembrar de um tio dizendo que a menina era igualzinha a ele quando menino, principalmente no gênio difícil. Lembrava o que amigos lhe diziam sobre a filha, ele realmente não sabia muito sobre ela. Lembrava do que mulher lhe contava… Sim, ela sempre falava da menina, mas ele nunca prestava muita atenção, tudo parecia sempre mais reclamação chata, cobrança de mais algum sentimento que não conseguia expressar ou dar valor.

Ela já não falava muito ultimamente, lembrou…  Será que percebeu o quanto a filha estava (ou era?) triste?

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