O desespero
Ela estava grávida de cinco meses e o avião caiu perto da Cordilheira dos Andes. Milagrosamente, ela e o marido tinham sobrevivido a queda, o bebê parecia estar bem dentro da mãe, precisariam vencer a natureza e conseguir ajuda, alguma maneira de sair do gelo e encontrar abrigo, comida. Ambos estavam chocados com a queda, com os mortos, não havia outros sobreviventes, precisavam pegar imediatamente o que fosse possível no avião e encontrar uma maneira de fugir do frio cortante e ameaçador. O medo de o avião explodir fez o casal se apressar e buscar abrigo um pouco mais distante do que sobrou do acidente, andaram sobre o gelo até uma área de terra que parecia isolada na imensidão branca, ao longe podiam avistar outras manchas no gelo, que deveriam ser outras áreas com terra. A sede e o cansaço começaram a dar sinais. E o desespero dominou os dois. Andaram ainda mais…
Muito tempo depois avistaram um abrigo que parecia abandonado há séculos, uma pequena guarita com menos de quatro metros quadrados e com o telhado em péssimo estado, encontraram trapos nojentos e tentaram se aquecer juntos, enquanto esperavam por mais forças para prosseguir. Ela, grávida, não poderia ir muito longe. Ele pensou que caso se perdesse no caminho, condenaria o filho por nascer e sua mulher à morte. Quando o frio diminuiu, adormeceram por algumas horas. Ao acordarem, o marido decidiu que era melhor voltarem ao avião para tentar achar água e alguma coisa para comer. Andaram por horas e não conseguiram encontrar o avião, o medo de também não conseguirem reencontrar o abrigo tomou conta de ambos, quase sem falarem um com o outro, andavam teimosos rumo ao que esperavam ser o lugar certo. Era quase noite quando encontraram novamente a guarita. Poderiam derreter neve para beber, mas a fome os mataria. Não tinham como caçar sem armas e sendo tão urbanos, a mulher ponderava que se o marido resolvesse sair para buscar ajuda, ela estaria condenada à morte com seu filho caso ele não voltasse. Ela tinha encontrado uma faca razoavelmente boa no avião que escondeu em sua roupa para o caso de uma necessidade, como o caso de precisar persuadir o marido a não deixá-la sozinha e procurar ajuda.
Não demorou que ele tocasse no assunto. “Seria melhor ele ir sozinho, ela precisava poupar energias por estar grávida” e tudo mais… Ela não queria ser deixada para trás e morrer junto com o filho que nem nasceria, enfiou a faca na garganta do marido “Me desculpe, meu amor… mas assim você vai cuidar melhor de nós…” foi o que ela falou ao encarar os olhos esbugalhados do marido. Esperou ele parar de se mexer e começou a tirar as roupas do corpo, precisava comer e já o tinha matado mesmo, melhor a fazer era não deixar estragar. Precisava lavar e cortar os pedaços para conservar no gelo, era uma tarefa trabalhosa e triste, afinal era a carne de seu marido amado e gordinho… Pensava que poderia ficar ali por meses, talvez anos, precisava de forças para sobreviver e tentar criar seu filho, com o tempo conseguiria caçar alguma outra coisa, lembrava de tantas histórias que conheceu de mães que superam tudo pela sobrevivência, respirava fundo e tentava esquecer que tratava-se das costelas do seu benzinho.
Estava separando a coxa esquerda da panturrilha quando ouviu um barulho perto da guarita, temeu que algum grande animal tivesse sentido o cheiro de sangue, se escondeu no canto e esperou em silêncio e então ouviu vozes humanas bem próximas de seu abrigo, não teria o que fazer… Foi o tempo de se levantar e viu o abrigo ser invadido por dois homens e uma mulher de uma operação de resgate ao acidente do avião. “Nossa, vocês foram longe… vimos rastros perto do avião e sabíamos que havia sobreviventes, estivemos aqui perto antes e não encontramos vocês, tem mais alguém com você, né?” E ela nem sabia o que responder, se apenas tivesse esperado mais um pouco… Então um dos homens reparou no sangue que tomava a guarita toda e nos pedaços de gente que pareciam empilhados perto do que seria uma pia. “Nossa senhora! Você deve ter pensado que nunca seria resgatada, né?” E uma longa pausa seguiu-se, onde todos encaravam a mulher sobrevivente, que tornara-se assassina canibal num piscar de olhos, esperando alguma explicação. Meio catatônica, a mulher afirma com a cabeça. “HAHAHAHAHAHA, que absurdo! E aí? Vocês acham que vão acusá-la de assassinato? HAHAHAHAHA! Mas, me diga uma coisa, senhora… A senhora gostaria de comer, já que matou e se preparou pra isso – e também, a senhora sabe, né, vai ter de responder por isso?” – disse o homem com um largo sorriso, como se estivesse acostumado a encontrar casais que sobrevivem a desastres e se matam como animais.
Música para clima ‘macabray’: Die, Die my darling – com Metallica (apesar de ser do Misfits, mas é melhor com o Metallica, podem conferir…)