Speeda Lunática
Ela gostava tanto de velocidade que queria mesmo era pilotar aviões. E naquela manhã em que mais uma vez corria mais do que o necessário para chegar ao trabalho, se perguntava como foi parar num emprego tão burocrático. Mas tudo bem, não dava tempo de pensar muito em qualquer coisa. O trânsito estava começando a fechar em sua frente, ela gostava de tentar costurar ao máximo os carros, não gostava de ficar parada na rodovia, era habilidosa e se divertia com a travessura. Punk Hardcore no som, alto. Atmosfera adolescente da qual ela sabia que nunca seria capaz de se livrar totalmente. Fechou uma velhota que falava ao celular e dirigia um sedã como se fosse uma carroça com as rodas frouxas. Não conseguia entender o motivo pelo qual as mulheres dirigiam como…
Seu pensamento foi interrompido por uma percepção absurda: seu carro estava voando. A adrenalina subiu tanto qua quase não conseguia pensar. Em sua cabeça, aquilo era impossível. Pensou que estava morta e nem percebeu, como se tivesse sofrido um acidente numa curva anterior, morrido e não tinha se dado conta. Alucinando? Dirigindo? Será que ainda estava na pista e estava alucinando? Será que causaria um acidente de verdade? Um carro não poderia simplesmente sair voando do nada! Será que ainda estava voando ou já tinha acordado daquela viagem? Ousou olhar pra fora, pela janela, para onde deveria estar o chão. Percebeu que não estava no chão, não estava nem onde tinha começado a voar, sua mente só podia estar lhe pregando peças. Seu carro estava em cima de uma árvore enorme. Se ela se concentrasse mesmo, talvez voltaria pra realidade, talvez tudo passasse. Mas um tranco no carro fez a adrenalina subir de novo. O carro despencaria daquela altura e seria o fim. Ela precisava sair dali, mas primeiro precisava acreditar que estava acontecendo. Mais um tranco e a insólita realidade presente a convence de que sair dali é o melhor a se fazer.
Sair do carro e cair de uma árvore de uns oitocentos metros de altura. Claro, ela estava delirando, a árvore não devia ser tão alta, aquilo não devia estar acontecendo. Embaixo da árvore estava o solo mais irreal para uma planta crescer: lava vulcânica. Então recapitulou a loucura: estava dirigindo para o trabalho, seu carro começou a voar e pousou numa árvore gigante plantada na lava vulcânica. Claro que ela iria acordar a qualquer momento. Inclusive aqueles dois vultos que se aproximavam e pareciam alienígenas ordinários de ficção científica só poderiam ser alucinação. Aquela loucura toda não podia ser real… Os vultos se aproximavam, voando sobre a lava em direção ao carro. Ela estava paralisada, achava que era o fim, fechou os olhos para não ver a morte.
Batidas na janela de seu carro, ela abriu os olhos. Dois policiais do lado de fora tentavam enxergar o que se passava do outro lado dos vidros escuros. Era noite, ela estava numa estrada comum, de asfalto comum, caía uma chuva normal de gotas de água. Ela realmente viajou. Mais batidas no vidro, ela desperta novamente para o que seria a realidade, sem certeza de estar acordada de verdade, confusa por não saber onde estava, não reconhecia os uniformes dos policiais e eles falavam um idioma que ela não compreendia. Não estava de volta onde tudo começou, tentou falar com os policiais, mostrou os documentos que tinha do carro, sua habilitação. Percebeu que os policiais discutiam alguma coisa sobre seus documentos e apontavam para a placa de seu carro. Talvez eles também não entendessem o que ela estava fazendo ali. Tentou usar seu parco conhecimento de inglês para manter alguma comunicação. Entendeu que eles queriam levá-la dali, provavelmente para a delegacia, era o que esperava. Talvez ela ainda acordasse de verdade em seu lugar, sua casa, sua cidade, aquela rodovia para o trabalho…