Manhã manhosa…
Tanta sorte, tanto privilégio, tanta vida… Apesar de chata, há quem queira estar ao meu lado e apesar de ausente, tenho amigos que me salvam, amor que me cura, problemas que me ocupam. Tem dias em que os ombros ficam pesados, a mente parece estar imersa no caos, parece que nada está bom ou faz sentido, mas tudo passa. Bom ou ruim, tudo passa… Mas tento sempre focar no que é bom, por que faz bem não só pra mim, mas pra vida e tudo ao meu redor. É sério isso: parece que quando estou mals, todo mundo está mals, como se fosse contagioso. Quando deixo a raiva dominar ou a tristeza invadir, tudo fica pesado por onde passo. Quando estou com raiva ou triste, gostaria de não sair da cama, mas algo me diz que isso seria esconder que sou comum e tenho dias ruins como qualquer mortal. Hoje em dia me permito ser menos espetacular…
E hoje tem alegria, sabe? Enquanto problemas de gente grande me preocupam e me fazem procurar soluções milagrosas para causas quase impossíveis, está chegando o aniversário do meu filhote. Estou em dúvida entre Pica Pau e Cococoió (Américo` style pra Cocoricó) e estou amando o dilema, adoro preparar festas e sou uma buta cozinheira. Outra coisa muito legal que vai ocupar meu fim de semana é a compra da imensa lista de material escolar dele. E ele vai fazer dois aninhos apenas, mas já precisa de uma resma de papel de cada cor, caixas e mais caixas de tinta, cola (normal, com glitter, com o diaboaquático), lápis, caneta, canetinha, canetão, giz, pincéis, telas, um violino, uma cama elástica, um notebook, um simulador de gravidade… Ok, é brincadeirinha… Mas é coisa pra caramba para um pequeno príncipe de dois anos. Lembro que A-M-A-V-A o começo do ano letivo por causa dos materiais novinhos, as canetas inteirinhas, a borracha branquinha e cadernos sem orelhas. Mi madre encapava meus cadernos todos da mesma cor e colocava uma etiqueta com meu nome e série, eu achava a letra maiúscula dela a mais linda do mundo. Em dois meses estava tudo um lixo, por que eu usava mesmo e sem dó tudo o que tinha. E meus cadernos eram verdadeiras obras de juvenil trash art, com as margens todas desenhadas e colagens nas linhas em branco.
Manhosa, pois é. Não só por ter as manhas de me transformar no que preciso, quando preciso ou esperar, quase pacientemente, que a tristeza passe, mas por querer colo hoje. Eu sempre fui mãezona mesmo antes de ser mãe de fato, sempre fui a que deu colo, a que nunca demonstrava qualquer abalo em sua estrutura tragicamente cômica. Mas hoje eu quero me permitir, quero me lamentar sem dó do ouvido alheio, quero reclamar da vida e dos dodóis que fiz me aventurando nela. É bonito evoluir e tals, mas tenho nostalgia da época em que a coisa mais importante da minha semana era recortar coisas bacanas pra colar em meus cadernos da escola e horrorizar as professoras. E pensar que sempre repetia que odiava a infância, putz, que malinha estúpida que eu já era…
Música, mas que diabos… Bittersweet Symphony – The Verve

