Arquivo

Arquivo de janeiro, 2009

Manhã manhosa…

28, janeiro, 2009

Tanta sorte, tanto privilégio, tanta vida… Apesar de chata, há quem queira estar ao meu lado e apesar de ausente, tenho amigos que me salvam, amor que me cura, problemas que me ocupam. Tem dias em que os ombros ficam pesados, a mente parece estar imersa no caos, parece que nada está bom ou faz sentido, mas tudo passa. Bom ou ruim, tudo passa… Mas tento sempre focar no que é bom, por que faz bem não só pra mim, mas pra vida e tudo ao meu redor. É sério isso: parece que quando estou mals, todo mundo está mals, como se fosse contagioso. Quando deixo a raiva dominar ou a tristeza invadir, tudo fica pesado por onde passo. Quando estou com raiva ou triste, gostaria de não sair da cama, mas algo me diz que isso seria esconder que sou comum e tenho dias ruins como qualquer mortal. Hoje em dia me permito ser menos espetacular…

E hoje tem alegria, sabe? Enquanto problemas de gente grande me preocupam e me fazem procurar soluções milagrosas para causas quase impossíveis, está chegando o aniversário do meu filhote. Estou em dúvida entre Pica Pau e Cococoió (Américo` style pra Cocoricó) e estou amando o dilema, adoro preparar festas e sou uma buta cozinheira. Outra coisa muito legal que vai ocupar meu fim de semana é a compra da imensa lista de material escolar dele. E ele vai fazer dois aninhos apenas, mas já precisa de uma resma de papel de cada cor, caixas e mais caixas de tinta, cola (normal, com glitter, com o diaboaquático), lápis, caneta, canetinha, canetão, giz, pincéis, telas, um violino, uma cama elástica, um notebook, um simulador de gravidade… Ok,  é brincadeirinha… Mas é coisa pra caramba para um pequeno príncipe de dois anos.  Lembro que A-M-A-V-A o começo do ano letivo por causa dos materiais novinhos, as canetas inteirinhas, a borracha branquinha e cadernos sem orelhas. Mi madre encapava meus cadernos todos da mesma cor e colocava uma etiqueta com meu nome e série, eu achava a letra maiúscula dela a mais linda do mundo. Em dois meses estava tudo um lixo, por que eu usava mesmo e sem dó tudo o que tinha. E meus cadernos eram verdadeiras obras de juvenil trash art, com as margens todas desenhadas e colagens nas linhas em branco.

Manhosa, pois é. Não só por ter as manhas de me transformar no que preciso, quando preciso ou esperar, quase pacientemente, que a tristeza passe, mas por querer colo hoje. Eu sempre fui mãezona mesmo antes de ser mãe de fato, sempre fui a que deu colo, a que nunca demonstrava qualquer abalo em sua estrutura tragicamente cômica. Mas hoje eu quero me permitir, quero me lamentar sem dó do ouvido alheio, quero reclamar da vida e dos dodóis que fiz me aventurando nela. É bonito evoluir e tals, mas tenho nostalgia da época em que a coisa mais importante da minha semana era recortar coisas bacanas pra colar em meus cadernos da escola e horrorizar as professoras. E pensar que  sempre repetia que odiava a infância, putz, que malinha estúpida que eu já era…

Música, mas que diabos… Bittersweet Symphony – The Verve

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É com a Lia

Olá, meu nome é…

23, janeiro, 2009

Lua Cheia. Nada como um dia após dia… Uma noite, um pseudo-reveillon e hoje estou melhor, muito melhor. Sem nó na garganta acordei cantando coisas muito adolescentes que tenho curtido ultimamente, por causa de um sentimento adolescente que insiste em crescer e ocupar muito dos meus pensamentos e sorrisos, aquela coisa que te faz rir de maneira boba quando lembra, eu sei que se algum dia você esteve apaixonado é capaz de entender…Adolescente, eu? Que isso… Eu sou tão séria e madura quanto o Pato Donald (bem humorada como ele, também) e estou bem assim, tem quem goste, afinal o mau gosto… vocês sabem… E uma musiquinha muito legal, do Gramofocas (das coisas que ando ouvindo ultimamente por livre e espontânea pressão):  Garota Comunista – Gramofocas

É com a Lia

Nó na garganta e pedra no sapato

22, janeiro, 2009

Tem dias assim, dias ruins, em que as escolhas ruins nos fazem sentir que somos idiotas e impotentes. Dia como hoje, estou realmente com aquela vontade que me dá quando sinto vontade de chorar: sumir, ficar invisível. Odeio quando fico assim, com esse nó na garganta e o choro preso. Por que não choro e desabafo? Porque isso não é da conta de ninguém, e ninguém quer saber por altruísmo, apenas curiosidade mórbida, pra ter assunto. Eu tenho uma grande pedra no sapato que infelizmente nunca vou poder me livrar (mas, graças aos Deuses, todo mundo morre um dia). Essa pedra estava no caminho e eu topei com meu lindo dedão, foi só muita decepção… A única coisa boa foi meu filho, e eu espero que ele um dia compreenda que estar presente não é pagar o melhor restaurante, mas preparar a comida junto; que estimular não significa pagar a melhor escola, mas acompanhar o seu desenvolvimento e aprender junto, que as pessoas valem pelo que são e não pelo que possuem – sei que essa compreensão pode ser seriamente distorcida por pessoas que considero pobres diabos ricos.

A impotência é que me dá esse nó na garganta, por que a pedra no meu sapato é  só asco e irritação. Tem coisas que, muito infelizmente, nunca vou poder mudar. E tem dias que, muito infelizmente, eu me dou conta disso e me sinto uma merda. Tenho vontade de tanta coisa, mas principalmente de poder seguir minha vida de gente grande, longe do que chateia, longe do controle alheio e da falta de bom senso de quem poderia me ajudar, mas só me emputece ainda mais. Não sei, mas sinto que a cada dia meu coração endurece mais um pouquinho, como se cada nó na garganta que engulo matasse a vontade de ser ilimitada, cada vez me faz fechar mais aqui dentro e fingir que está tudo bem. Não sou digna de piedade, mas adoraria algum respeito… É realmente uma merda quando subestimam sua inteligência, superestimam sua paciência e deturpam seus valores. Tem dias em que tudo o que eu queria era ter uma bazuca…

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Música pra hoje:  Where is my mind? – Pixies

É com a Lia

Cozinhando na Pressão – Parte 3

20, janeiro, 2009

Chegou no inferno, era o que pensava. E nenhum sinal de seu filho, nenhum sinal de vida, morte, luz. Nenhum sinal, então lembrou que tinha um celular que iluminava as trevas com seu visor, mas sem sinal para comunicação. Naquela hora isso nem importava tanto, ver onde estava era mais urgente que pedir ajuda. E pra quem ligaria? Como explicaria onde estava ou, melhor ainda, como tinha chegado ali? Só queria achar o Gabriel e sair dali. Continuou chamando o filho enquanto tentava enxergar alguma coisa, andava perto da parede onde estava a escada, não podia perder a escada também… Sentiu uma porta que parecia gigantesca na parede, tentou iluminar a fechadura com o celular e viu que só abriria por dentro. Forçou e abriu, parecia que já estava aberta, então entrou. Uma luz esverdeada acesa fazia a fumaça que existia no lugar parecer ridícula e artificial como a névoa que surgia em cenas de pântanos filmadas em estúdio. Mas ali não parecia ser um estudio…

E um ser ridículo estava sentado no que parecia ser um trono de cocô, pois estava tão velho e nojento que não era mais possível identificar se era feito de madeira, ferro ou lixo. Ele estava olhando pra ela, ao seu lado estava Gabriel, ou o que ela acreditou ser seu filho pois olhando agora parecia outra coisa.  - Gabriel? É você, meu filho? Nem se mexeu, apenas olhava pra ela como quem olha uma paisagem ao longe. Ela gritou mais alto, seu estômago congelou e uma queimação subiu das bochechas pras orelhas. E continuou aos berros: O que você fez com o meu filho? A respiração já nem parecia humana, ela tinha incoporado a fera que protege a cria, urrava pelo filho, foi pra cima do filho tentando protegê-lo, talvez enfiá-lo em sua bolsa de mãe-canguru e sair pulando. Ela não mais dominava a razão. Seu filho não tinha a menor reação. A coisa nojenta no trono resolveu falar, sua voz era chiada, como se suas cordas vocais estivessem podres, saia uma fumaça verde de sua boca quando falava, ela se esforçava para entender o que dizia.

Xeu fio pote boltar… HAHAHAHA!

Ela não entendeu muito bem, mas o pote boltar soou algo como pode voltar, ela pegou o garoto no colo e correu, nem sentia o peso de um quase adolescente, ela corria como se estivessem sob bombardeio, como se ele tivesse o peso de quando tinha dois meses, como se a permissão do monstro da boca podre fosse, na verdade, uma ameaça. Tudo estava muito escuro, mas seus olhos já tinham se acostumado quando, de repente, tudo ficou muito claro, como se tivesse levado um golpe de luz que a deixou cega. Piscava, piscava… O foco voltava, era dia ainda, um lindo entardecer. Seu filho estava ao seu lado, dormia em seu colo com a expressão de anjo que tinha desde que nasceu e que ela acreditava que ele não perderia nunca. Ela não quis acordá-lo logo, apesar de não entender como ele estava ali. Talvez, talvez tudo tenha sido um pesadelo. Será que ele teve o mesmo sonho?


Contos

Jabá da Lia

15, janeiro, 2009

Ah, eu sou tão kul… É sim, muita gente quer ser meu amigo. Alguns (meia dúzia de chegados) gostam de perguntar o que estou ouvindo, ou lendo, ou acompanhando com a intenção de me copiarem e parecerem mais interessantes para as futuras vítimas. Algumas vezes o tiro sai pela culatra, afinal o mau gosto impera, né? Mas, pra quem se interessa, esta aqui é a minha estação de rádio na Last FM. Claro que você terá de criar um usuário ali, mas é um lugar muito decente pra se conhecer música diferente.

Eu escrevi um post irado esses dias, com raiva das escolhas que a vida fez por mim, com raiva da limitação alheia em perdoar e superar mágoas, triste por expôr a falta de amor de quem diz que ama meu filho. Resolvi não publicar, por piedade ou pra evitar a fadiga, ou ainda por saber que esse caminho não é o melhor. Mês que vem é aniversário do meu filho, dois anos de coisa linda da minha vida. É muito legal saber que nas fotos da festa, que um dia ele verá e compreenderá melhor, estarão as provas de que meu amor por ele é capaz de superar até a  presença de indesejáveis.

E hoje vou recomendar uma banda muito foda, que estou namorando todo dia, e essa música em especial eu ofereço à todos os bundões que não sabem conquistar o respeito alheio e vivem sob o jugo da aceitação dos que deveriam incentivar em vez de reprimir (ainda bem que a mãe do meu filho não é um monstro desses). Aliás, ouçam outras músicas dessa banda… Adorei quase todas. Mas essa é especial – Sobre ser sentimental – Ecos Falsos

P.S. Antes que algum purista xiita venha chacoalhar as pulgas em mim, não ganhei nada pra fazer propaganda… só fiz por que sou idiota mesmo.

Contos

Cozinhando na Pressão – Parte 2

9, janeiro, 2009

A tarde acaba, ela resolve voltar pra casa quando vê um buraco de esgoto sem tampa ao lado do teatro. Nada demais, pensou por um segundo… Mas viu uma cabeça muito familiar aparecer e desaparecer ali dentro – seu filho Gabriel. Ela reconheceu seu rostinho ainda de anjo, apesar da recente acne e do cabelo pintado de verde. E ficou aflita, gritou seu nome, mas ele tinha desaparecido dentro do buraco. Será que estava louca, finalmente? Correu até o buraco e olhou para se certificar que já estava alucinando, mas foi como um soco no estômago. Gabriel descia uma escada e olhou pra cima, deu um sorriso pra mãe e continuou descendo, parecia estar alheio aos seus berros histéricos… E ela ficou sem reação, apesar do pânico que começava a enjoar o estômago. Nem se perguntava a razão pela qual seu filho descia ali, o que ele fazia fora de casa, ela simplesmente não conseguia pensar. Só foi junto, só entrou no buraco e desceu as escadas, só foi atrás de sua cria. Chamava o filho, nenhuma resposta e a escada parecia que nunca acabava, a descida parecia lhe restituir a razão – que diabos era aquilo tudo? E descia, chamava o filho, descia, descia.

E acabou num buraco, literalmente. Nenhuma luz, a fraca abertura pela qual desceu não era suficiente pra iluminar aquele inferno fedorento.  – Gabrieeeeel! Bieeeeeel! Ela chamava, sem resposta. Recomeçou a duvidar de sua sanidade mental, afinal o que seu filho de onze anos estaria fazendo ali, um lugar como aqueles? Nada de luz, pegou na bolsa o celular para tentar iluminar aquela treva toda, quando o visor acendeu levou um tremendo susto ao se deparar com… aquilo.  Apesar de parecer ser uma motocicleta no melhor estilo dos Abutres, estava sobre trilhos que pareciam aqueles das minas subterrâneas. Realmente deslizavam sobre os trilhos, pois ao iluminar o lugar e levar um susto, percebeu que alguma coisa parecida com… aquilo estava se deslocando bem na sua frente e sumiu da visibilidade. Nas trevas qualquer luz é Sol, apesar da bateria estar na metade, a luz daquele celular era todo o conforto que ela tinha ali, e parecia funcionar. Ela percebeu que estava num lugar muito, muito estranho. Restos de carros alegóricos de Carnaval, restos de carroças ou carruagens, restos de civilização, tudo podre e medonho. E ela não sabia o que estava acontecendo, acreditava estar no subterrâneo do teatro, acreditava estar atrás de seu filho que se enfiou naquele buraco. Subiu naquele veículo híbrido de moto do Capeta com trenzinho de mina e ele começou a deslizar pelos trilhos, a velocidade foi aumentando, mais nada era reconhecível.

Como uma cega na montanha-russa só conseguia sentir a vertigem da descida e das viradas. Só pra baixo, provavelmente acabaria no inferno, ou no Japão. E por que seu filho se enfiou naquele buraco? Provavelmente pra chocá-la. Ele realmente tinha extrapolado os limites dessa vez, ela pensava num bom castigo pro pequeno meliante, talvez tirar a internet dele por umas semanas… Sentiu culpa, remorso, medo e aflição depois de pensar em puní-lo. Como poderia pensar nisso num momento tão… tão… ridículo! Era isso mesmo, tudo aquilo era ridículo. Ela ainda não conseguia acreditar. E essa era a prova de sua sanidade, pois qualquer pessoa que achasse comum estar num subterrâneo como aquele só poderia ser louca. Só uma mãe consegue ser tão louca ao ponto de descer ao inferno, acreditar que o filho estava a frente e que conseguiria voltar com ele pra casa, como quando sumiu no parque e ela ficou quatro horas procurando. Otimismo materno é tudo, só uma mãe é capaz de ser tão otimista com tão pouco, só ela é capaz de ver num ser com cara de joelho, sem dentes e totalmente indefeso o futuro da humanidade e achar que isso é uma coisa boa. Mães… As boas são todas iguais. Onde aqueles trilhos acabariam, afinal? Deu mais um grito, pra se certificar de estar fazendo alguma coisa além de se deixar levar pelas circunstâncias: Gabrieeeeeeel!!!!

Continua

Musica desta sexta: Neither heaven nor space – Nada Surf

Contos

WTF is a MEME?

6, janeiro, 2009
Recebi um MEME (O o) da Karol, do InBalada. MEME é, aparentemente, uma forma de você obrigatoriamente passear pelo blog dos outros e saber de coisas que eles queiram que você saiba, por alguma razão que só eles e os Deuses sabem…
As regras são as seguintes:
1 – Linkar a pessoa que te indicou.
2 – Escrever as regras do MEME em seu blog.
3 – Contar 6 coisas aleatórias sobre você.
4 – Indique mais 6 pessoas e coloque os links no final do post.
5 – Deixe a pessoa saber que você o indicou, deixando um comentário para ela.
6 – Deixe os indicados saberem quando você publicar seu post.
Então…
1º. Quando eu sou boa, sou muito boa e quando sou má sou melhor ainda…
2º. Odeio quando não dá pra segurar a onda
3º. Sou louca
4º. Sou um exemplo clássico de que o mau gosto impera
5º. Sou insuportável quando estou cansada
6º. Sou muito mais insuportável quando estou empolgada

Empurrar o MEME para 6 pessoas…

Brisa Feliz

EscúchamePorra

Lesma de Sofá

Mais ou Menos Nostalgia

O Mundo do Avesso

Tal e Coisa, Coisa e Tals…

É,  acho que é isso, gente…

Música? Quer? Flamenco Diablo – Yngwie Malmsteen

Conselhos Inúteis, Contos

Cozinhando na pressão

5, janeiro, 2009

Se ela era escritora? Claro que não, apenas sabia escrever. E todos seus personagens eram sua fuga pro que queria ter coragem de viver. Não que lhe faltasse coragem na vida, talvez ânimo, talvez interesse…  Como personagem não se achava grande coisa então quase tudo era autobiográfico, mas era quase tudo mentira. E vivia na pressão. Vivendo numa cidade enorme, desumana mesmo com (ou talvez por ter) tanta gente, feia durante o dia e perigosa à noite, sentia-se vivendo na barriga de um monstro. E sentia-se mal por não sentir-se tão mal com isso. Ela tinha um nome estranho, Larilará. Seu pai era um músico bêbado e apaixonado que morreu cedo demais, o nome que ele escolheu contribuiu muito para a infelicidade de Lara – era como ela se apresentava para não ter sempre de explicar o motivo constragedor pelo qual seu pai escolhera batizá-la de maneira tão ridícula.

Ridícula era uma de suas palavras favoritas, aliás. Quando odiava alguma coisa, taxava de ridícula.Vivia pressionada com prazos, tinha sempre de entregar algum release – que é um texto idiota feito para as assessorias de imprensa venderem seus clientes pra mídia – pra ontem, tinha de dar conta de revisar textos de formandos antes dos prazos finais, pois estes quase sempre eram incapazes de fazer um bom trabalho de conclusão de curso ou mesmo de admitir a própria incompetência e encomendá-los com justa antecedência, tinha de dar conta de dois filhos quase crianças e quase adolescentes, tinha de ser mulher e tentar ser feliz. Era feliz se felicidade significa ter o que se precisa para viver como saúde, família, trabalho. Não era feliz por nunca relaxar. Sentia que nunca mais tinha dormido uma noite sossegada desde que seu primeiro filho nasceu. E a coisa só foi aumentando, as demandas da vida só cresceram e ela continuava se sentindo a mesma. Alguns dias ela acordava e se perguntava se tudo era real mesmo, onde ela estava quando toda sua vida aconteceu até aquele ponto ou como o tempo podia passar tão despercebido.

Então ela resolveu escrever mais um capítulo pro romance que não concluía nunca. Escrevia aquela maldita história há sete anos, tudo já tinha mudado de rumo quinze vezes, ela já teria escrito pelo menos seis livros diferentes se não fosse tão insegura, indecisa, insatisfeita consigo mesma. Insólita. Tanta vida passou por ela que a fez intrigar quem viveu menos e irritar quem viveu mais. Era o caso. Tinha sentido-se desafiada por aquela vaca que a atormentava desde que eram crianças. Oh! A senhora vaca-botox continua casada e deixa a filha única com uma babá quando vai semanalmente relaxar num spa. E ainda tinha coragem de dizer que não gostava de ler livros, só revistas. Uma inútil, uma fútil, uma abominação que precisava ser  repelida e superada. Ela terminaria seu romance, seria publicada e seria melhor e mais feliz que a vaca-botox. Ela não queria acreditar que podia estar errada sobre mulheres burras serem apenas objetos, mesmo considerando muitas vezes que burra tinha sido ela por deixar a juventude passar sendo orgulhosa demais para usar sua beleza no lugar das idéias. Ela era muito inteligente, mas era muito burra…

Naquela manhã resolveu visitar o cenário de sua travada ficção – o Teatro Municipal. Era uma construção antiga, fantasmagórica e que a encantava desde criança. Sua família tinha um senso de humor muito negro, típico dos sarcásticos Andaluzes e seu pai sentia um sádico prazer em contar terríveis histórias de belas mocinhas que iam sozinhas ao teatro e desapareciam nas garras de monstros e fantasmas que viviam (viviam?)  em um subsolo secreto que estava ligado aos esgotos da cidade. Ela gostava de lembrar do medo que sentia. E ali, no imponente Teatro Municipal, buscava inspiração para continuar seu romance. Sua heróina já tinha descoberto os monstros e os esgotos tinham se tornado uma rota alternativa para fugir dos que a perseguiam. E o romance empacou ali. Nada incrível depois da descoberta dos tais monstros… Nada além de mais um café na lanchonete mais próxima e mais uma tarde entre lembranças dos traumas da infância.

Continua…

Música pra 2009 começar: Be quiet and drive – Deftones

Contos