Arquivo

Arquivo de maio, 2008

Bem feito pra ele

25, maio, 2008

parte III

Passei o dia aflita pelas oito horas, na minha idade os dias parecem se arrastar, a curiosidade me tirou até a fome. Fui até o portão cinco minutos antes das oito e pude ver sua empregada sair. Assim que ela virou a esquina, toquei a campainha da casa dela. Ela abriu quase imediatamente, veio apressada abrir o portão e me fez entrar como se estivesse apavorada com a idéia de alguém nos ver. Eu entrei o mais rápido que consegui, em silêncio, e me deparei com uma casa que parecia mais uma sala de espera de consultório. Poucos detalhes, tudo impecável e impessoal, nada de porta-retratos ou enfeites trazidos de viagens, tudo muito limpo e até assustador. Ela me olhou nos olhos muito aflita, não me perguntou se queria sentar ou beber algo, parecia estar em pânico ou louca. Perguntou como uma acusação: “Então você pode me ajudar?” – “Olha, minha filha, eu ouço as brigas de vocês e fico com pena… queria ajudar, mas não sei…” – ” Você pode? Quer ajudar ou queria?” – “Eu quero!” – Não sei se disse isso só para saber a história, naquela hora o que me mais me corroía era a curiosidade, mas queria tanto saber que não me importei com o que viria.

Ela se sentou, sem tirar os olhos de mim. Eu fiz o mesmo. Começou a chorar, mas falava sem pausas: “Eu me casei com ele sem saber que era uma pessoa tão cruel. Tenho um filho, bem… é como se fosse. Sou orfã desde os três anos, cresci num orfanato de onde fugi aos quatorze anos, foi quando entrei para uma companhia de dança e encontrei minha vocação… Quando tinha dezesseis, estava voltando para uma casa que dividia com mais quatro amigos quando vi uma mulher abandonar uma criança na praça. Estava muito frio, eu sabia que não adiantaria ir atrás da mulher, peguei o bebê e o levei comigo, e o levei pra sempre. Era meu filho… Eu conheci meu marido há dois anos, ele parecia ser um bom homem, honesto e disposto a ficar comigo mesmo sabendo que eu tinha esse filho. Ele nunca soube que não é meu mesmo, ou sei lá o que seria capaz de fazer. Quando nos casamos, ele adotou meu filho como se fosse dele, e o colocou num colégio interno… Isso é o que ele diz. Eu preciso saber onde está meu filho! Isso é tudo o que me prende aqui… Não posso fugir sem saber onde procurá-lo… Me ajuda?”

Fiquei sem reação. Era um caso bem cabeludo pra se resolver, não sabia o que uma velha como eu poderia fazer pra ajudar, por onde começar ou o que procurar. Tentei acalmá-la, seus olhos estavam desesperados em mim, implorando por alguma esperança. Não pude desapontá-la, prometi tentar descobrir onde era o tal orfanato, prometi também que não contaria nada na vizinhança. Saí com a sensação de ter uma grande missão pela frente, uma aventura tardia, revigorada. Claro que ela só me pediu ajuda por falta de opção, ninguém mais sabia tanto de sua miserável vida além de mim, e passei a saber ainda mais quando comecei a investigar o lixo e a seguir o facínora. Depois desse nosso primeiro encontro não sabia quando poderia vê-la novamente…

Contos

Dancing days

18, maio, 2008

Estou de volta e dá vontade de gritar quando coisas boas acontecem. Tentando não me isolar, não me impedir de tentar mais uma vez, não me sabotar, pra variar… Não quero me tornar amarga pelas decepções, medrosa nunca fui. Reaprender a ser livre, a me deixar ao alcance, saborear aventura de novo, me permitir. É, eu estou muito bem hoje, queria agradecer a mim mesma por não ter sido covarde. Valeu muito a pena. Hoje o dia começou gostoso, estou de ótimo humor (raridade, pata Donalda), vontade de beijar o céu e deitar, de novo, nas nuvens… E pensar na noite.

Ouvindo nas nuvens: Dancing days – Stone Temple Pilots (cover do Led Zeppelin)

É com a Lia

Oh, mundo cruel!

11, maio, 2008

Dia das Mães! Meu segundo nessa experiência, vigésimo sexto como filha. Aí hoje foi um dia muito bacana, apesar de mi madrezita ter feito questão de ir até o cemitério visitar a campa de minha avó. Eu farei o mesmo um dia, talvez. Mas não tive vontade de ir, faz um frio do cacete em Sampa, nem era tão chegada na vó. Ela dizia de mim: “Minha neta mais bonita, mas a mais malcriada” e entre seus carinhosos apelidos estava um que me encanta até hoje: feijão perdido. Preferia contar maravilhosas estórias de uma avó doce e carinhosa, mas a minha era bem figura, brava… Mas, que os Deuses a tenham em ótimo lugar, pois foi uma mulher muito guerreira e que morreu sem nunca engolir o próprio orgulho! Dei presentes e ganhei presente… Nem esperava! Obrigada, irmãozinho! Você tem me dado tanta força, apesar de nossas diferenças, você sabe que nosso amor é incondicional e que sempre estarei contigo (agüenta!).

Hoje foi um dia feliz. Continuação do churrasco de ontem que foi na casa da minha tia, ela veio com seu caçula, que é um adolescente que vi nascer e crescer, e hoje é quase um homem. E ele me falou de uma coisa que me encucou, um vídeo de um espancamento de um rapaz emo. Aí eu fui pesquisar e achei um monte de vídeos que simulam espancamentos de emos. Fiquei pensando: por que? Que é que tem os meninos curtirem um visual mais ou menos assim ou assado? Pois dizer que os emos são os caras que fazem rock and roll mela cueca é colocar muita gente nesse barco. Cantar as agruras da juventude sempre foi a moda, sempre foi ser diferente. Se agora a juventude chora por que o pai cancelou o cartão de crédito ou por que a jovem namorada resolveu ter outras experiências é apenas um reflexo da sociedade que criamos. Não precisamos de grandes problemas quando o egocentrismo é nutrido até a obesidade.

Hoje é um dia em que a palavra engajamento me faz todo o sentido, o engajamento verdadeiro, não o burocrático, duh. Mães, boas mães, têm como ideal um mundo melhor para seus filhos e que estes sejam pessoas melhores para o mundo. Eu vivo este ideal, me preocupo muito com o mundo que meu filho vai ver, como vou explicar. Gostaria muito que ele entendesse que a maior ignorância do ser humano é a intolerância, seguida pela indiferença. Se as pessoas pensassem mais no mundo de seus filhos, nos valores que nenhum dinheiro compra, na felicidade em vez do sucesso, nas semelhanças em vez das diferenças… Oh, mundo cruel! Esse mundo onde crianças crescem longe de suas famílias inspira essa moda deprê, tem que ter muita vontade para ver a beleza atrás dessa cultura do medo de ser quem realmente se é.

A trilha de hoje é bem “emo”, apesar de ter mais de dez anos, em homenagem a minha querida árvore: Creep – Radiohead

Brisas, Maternidade

Sem ele aqui

1, maio, 2008

Sem ele aqui, a casa fica tão vazia… Meu dia parece tão longo, tão sem graça. O silêncio domina o ambiente, os brinquedos não querem brincar, falta meu toquinho de gente. E eu fico tão perdida! Desde que sou mãe, vesti a carapuça de leoa e me acostumei a nunca abandonar a cria. Mas sei, eu sei, tenho que me acostumar com essa rotina, infelizmente. E cada vez mais, como manda o figurino. A cada dia ele está mais independente, cresce rápido, e eu vou precisar ser muito forte cada vez que ele não estiver sob meus cuidados. Fico inerte, sem saber oque fazer do meu dia, acostumada com a rotina estreita dos horários dele, com as brincadeiras e músicas que ele gosta. Sem ele aqui, meu dia fica tão cinza, tão sem graça… Dá vontade de dormir e só acordar quando ele chegar, mas isso seria uma fraqueza, um fracasso da minha parte. Preciso continuar vivendo, seguir em frente e não me deixar abater, pois ele vai voltar. E, hoje, eu tive um ataque de cabelo e cortei tudo, fiz uma franja e enchi de pontas… Agora estou aflita: será que meu gatinho vai gostar ou vai estranhar? Afinal, a opinião dele é a que mais me importa.

Trilha de hoje: Leãozinho – Caetano Veloso

Maternidade