Arquivo

Arquivo de março, 2008

Ui!

31, março, 2008

Olha, por favor, não leve a mal o que vou dizer… Mas é o seguinte: Não é por que estou me divorciando que estou procurando outra pessoa. E, se estivesse, não seria alguém comprometido. Além do mais, você tem uma vida que seria demais pra minha cabecinha, você é muito ocupado, está sempre viajando fazendo coisas importantes, e eu não poderia te acompanhar. Ficaria triste e acabaria sendo uma megera, não vale a pena. Você é um cara muito legal, eu sei. Aposto que muitas aqui te paqueram e adorariam ser a outra da sua vida, mas eu me sentiria muito mais honrada se você quisesse minha amizade. Amigos?

É com a Lia

Colorindo de som

28, março, 2008

Sair cedo e brilhar a luz do dia carregando você nos braços, a cor do dia e o cheiro de manhã úmida, pessoas acordadas e música em nosso caminho. É sua voz que não pára de falar coisas que só nós dois entendemos, você fica e eu sigo. E começo a pensar em você, mas agora é outra preocupação, é ser gente grande por que você precisa. E a manhã fica colorida de óculos escuros e a música é mais pauleira, por que preciso estar atenta, protegida. Começo meu dia protegendo você, depois eu saio para a selva, para caçar nossa vida e volto pra você o quanto antes, sempre. Cria pequena precisa do ninho. E mais uma vez sua voz é minha música e o dia tem cores de novo. Minha jornada de volta com você nos braços é a certeza de que as coisas ainda fazem sentido no mundo.

Trilha de hoje: Faltando um Pedaço – Djavan

Brisas, Maternidade

Árvore de estrela

22, março, 2008

Era uma vez uma árvore de estrelas que morava na montanha mais alta, bem pertinho do céu. Quando era noite, e o céu estava limpo, ela jogava seus frutos pro ar. E eles enfeitavam a escuridão, brilhando com toda a força para competir com a luz do luar. Quando a noite acabava, e o Sol iluminava o dia, os frutos desapareciam do céu e a árvore preparava outros, para a próxima noite. E cada fruto que desaparecia com o dia deixava sementes de luz, que se transformavam em novas idéias para as pessoas que os tinham admirado durante a noite.

Contos

Primeiros passos

19, março, 2008

Para registrar, ontem o Américo começou a andar… Pena que eu não estava com a câmera! Foi lindo ver sua carinha… sua carinha de lindo superando obstáculos, louco de alegria por se ver capaz. Foi lindo! Já está dando uns dez passinhos sózinho. QUE LINDO!!!

Maternidade

Cada

18, março, 2008

Cada dia é um ano novo  e cada coisa te ensina outra. Tudo flui e nada estanca, a não ser você. A vida é cheia, mesmo quando os dias parecem vazios, os minutos estão carregados de lembranças e sensações, um dia este dia será apenas uma lembrança do ontem, e eu vou rir de mim, como sempre. Amanhã eu vou estar melhor que hoje, como hoje estou melhor que ontem. O tempo me faz bem, eu acho. O meu tempo. Cada coisa que pensei e não desenvolvi são o gatilho para as novas idéias, muita vida. Muita coisa pra ver ainda, muita vida pra viver e coisa pra fazer. A cada dia sei que pessoas morrem e que, um dia desses, eu vou morrer, todos morreremos. Mas nada vai parar, então, por que eu o faria? Não tenho medo de viver por que morrer é uma certeza para todos… E vou errar muito ainda, talvez até me redima dessas arrogantes palavras e pensamentos um dia, talvez nem esteja errada pra isso. Mas cada erro me ensinou mais sobre mim do que sobre a vida. Então, acho que percebi que ninguém aprende a viver, mas vive aprendendo. Cada vida tem muita vida para não ser desperdiçada.

Brisas

Questão de criação

15, março, 2008

Dizem que a lendária Fênix renasce das próprias cinzas, isso é bem dramático… Eu fui criada para ser bem forte, descendo de uma linhagem de mulheres fortes e independentes. Até que ponto isso foi bom pra mim, só eu sei e agradeço horrores, afinal eu não me trocaria por outra por nada nesse mundo. Ser assim é uma delícia, desse jeito como eu sou… Mas será que foi bom pro meu irmão? Até que ponto ser uma mulher mais macho que muito homem pode transformar os filhos homens em cagões? Eles crescem acostumados que serão protegidos pelas mulheres, amparados, superestimados, superexigidos… Como será que aprendem a lidar com a frustração de não serem tão versáteis quanto suas mães, mulheres e filhas?  Acho que alguns nunca aprendem, e chegam até a agredí-las em tentativas covardes de autoafirmação. Alguns lutam a vida toda para escapar da opinião materna, aliás, as mães quase sempre nem fazem idéia de quanto suas opiniões pesam e podem atrapalhar a vida dos filhos. É um ditado (olha eu dando uma de mi madrezita) que é bem aplicável: o fruto nunca cai muito longe de sua árvore. Os filhos vão refletir a criação que tiveram, vão copiar os exemplos até que comecem a questioná-los, se tiverem aprendido que isso é bom. Até que ponto uma mãe forte pode sufocar seu filho? Eu me preocupo muito com isso, por que quero muito criar um filho forte, mais do que eu até. Fico sempre me policiando para não tratá-lo como um bebê mais novo do que ele é, para não subestimá-lo ou desencorajá-lo a viver suas aventuras. É difícil, já dá saudade de quando ele era menor, quando cabia nos meus braços inteirinho… Sei que um dia nem meu colo inteiro será capaz de comportar sua presença, sei também que meu coração todo vai sempre morrer de medo da sua ausência. Ser mãe é viver no limite das emoções, é viver sem limites.  Quando bate a incerteza, a dúvida sobre o futuro, sempre penso: A vida é curta, mas eu não tenho pressa…

Maternidade

Dias e noites

14, março, 2008

Sexta-feira. Final de uma semana cansativa, estressada e linda. Noite de ficar um pouco na net, ler os camaradas, pesquisar a vida alheia, escrever uma bobagem a mais. Vida que não pára, dias que terminam exaustos, mas felizes por dormirem ao som dos chutes que o Américo dá no berço. Dias que começam com um brinquedo que me acerta a cabeça, acompanhado de um sorriso careteiro e um lindo bico falando “nonono”. E beijinhos mandados ao ar, com bracinhos estendidos e um olhar de “Olha, mãe! Eu tô me equilibrando sozinho já!”. Nem ligo pros seus quase onze quilos que insistem em ficar pendurados na minha cintura. Talvez até seja por isso que ainda tenho cintura… Sexta-feira. Dia de começar o fim de semana. Amanhã, nós não precisamos sair cedo, podemos ficar brincando por horas, posso curtir você o dia todinho, te mimar e agradar muito. Te dar a mão pra você pensar que estou te ajudando a andar mas, na verdade, acho que você já sabe andar faz é tempo e fica nessa preguicinha só pra eu me sentir mais útil, mais necessária. Aposto que você já sabe até sapatear quando eu não estou olhando, talvez até voe e fale francês… Seu sono bonito, seu rostinho de anjo, seu cheiro de vida nova, sua paz são meus tesouros, minha fortuna. Sexta-feira, e você parece advinhar que amanhã não precisamos acordar cedo, parece advinhar que é dia de balada. E fica fazendo festa no berço, brigando com o sono, pedindo para ficar mais um poucão acordado, brincando. E quem resiste? Mais uma horinha contigo… Você faz qualquer sexta-feira em casa ser uma festa!

Brisas, Maternidade

O gosto de A.

1, março, 2008

Ela devora as coisas a sua volta e sorri para o vazio. Absorve tudo com os olhos e ouvidos e nariz. Não toca e nem lambe, ainda… Quando ninguém está olhando, ela chega mais perto e coloca a mão, depois dá uma lambidinha e faz cara de nojo. Nunca tinha visto um cadáver antes, mas era assim que experimentava a vida. Sempre levou bronca quando flagrada com a boca onde não devia. Mas o gosto das coisas era o que mais lhe atraía na vida… O gosto. Aquele cadáver tinha gosto de pó e ferida. Não estava com medo por que acreditou quando sua tia lhe jurou que fantasmas não existiam e que a casa não era má assombrada. Elas tinham passado a noite quase inteira com a luz acesa e nenhum fantasma apareceu. Então seu pai agora era apenas um cadáver e o espírito tinha sido levado pro céu pelo seu anjo da guarda. Não tinha virado um fantasma.

Colocou uma flor na boca. Já tinha provado daquelas. Uma flor amarela, com muitas pétalas, cris… cris… “Crismânteno!”. A sala estava quase vazia. Sua avó tinha passado por ali e deixado todo mundo chocado. Uma cena e tanto. Una bruja vieja, como sua mãe dizia. Um lenço sujo amarrado nos cabelos brancos e muito compridos, verrugas pelo rosto e olhos assustadores num corpo encurvado e coberto de negro. Era quase de seu tamanho, notou quando a velha chegou quase carregada pelos outros tios, mas parecia que nunca tinha sido uma criança. E seu pai era o filho caçula e preferido da avó. Ela gritava e chorava de maneira estidente na cabeceira do caixão: - Hijo de mi alma!!! Hijo de mi corazón!!! Por qué murió antes que yo? Os gritos eram tão tristes… Ela esmurrava o peito, rasgava o pescoço com as unhas e chorava tanto que tiveram de secar o chão quando saiu desmaiada. As lágrimas da avó tinham um gosto amargo, salgado e ruim. Aquele devia ser o gosto da amargura e do desespero. Quanto levantam o caixão, ela sente um frio na barriga. E agora? Então é nunca mais? Sentiu uma culpa enorme por não ter contado ao pai sobre o relógio que quebrou e escondeu. Desaba a chorar. Nunca mais…

- Pai! Seu relógio! Fui eu quem quebrou, eu enterrei no quintal pra você não ficar bravo comigo… Pai! Não precisa morrer! Me desculpa! – Sua mãe também recomeça a chorar e seus irmãos menores também. Um calor e uma vergonha com gosto seco e nó na garganta lhe sube pelas orelhas e ela pára de chorar. Agora ela tinha de ser uma mocinha, foi o que sua tia disse. Tinha de ajudar a mamãe a cuidar dos três irmãozinhos… Sua mãe a abraça e diz: – Não é culpa sua, filha! Deus é injusto! Deus que é injusto! Sua tia lhe pega pela mão e diz que a mãe está muito triste, que não sabe o que diz, que Deus é bom. Ela fica confusa, mas Deus é sua menor preocupação agora, pois queria saber o gosto que tem um cemitério. E estão quase chegando quando ela vê, pela primeira vez na vida, um periquito de realejo. Leva um puxão da tia, que olha bem feio. Sente mais um calor de vergonha, mas a vontade de saber o que era aquilo a tinha hipnotizado. Onde já se viu deixar o funeral do pai pra ir brincar com um passarinho? Agora, ela é uma mocinha! Tem de se comportar e não irritar a mamãe. – Nunca mais eu vou lamber as coisas perto da minha mãe! Apesa de dizer bem baixinho, a tia ouviu. - Que você disse? – Vergonha quente de novo, mas na tia ela confia pois é a pessoa de quem mais gosta depois do pai… - Disse que eu não vou mais lamber as coisas perto da mamãe. A tia sorri e lhe aperta os ombros. Chegam, enfim, ao cemitério. Ela devora as coisas a sua volta.

Contos