Junie

Ele, era do sexo masculino agora e então vai. Andar de um jeito bruto e fazer um olhar meio fechado, uma cara meio sacana para dar um ar de segurança, ‘eu sou o cara!’ – pensou. E forçou uma risadinha meio torta enquanto ajeitava a franja para o lado. Andava sob o Sol frio de jeans, camiseta azul, tênis e mochila ‘black hole’. Buraco negro, o que queria dizer com o nome pelo qual tinha batizado e rabiscado pela sua mochila, significava que tudo o que ele colocava ali se perdia. Era realmente uma mochila cheia de coisas… E sob o Sol ele ensaiava seus primeiros passos de homem rumo ao desconhecido terreno da maturidade. Ainda que fosse uma mulher, ela queria ser o cara. Reinventar a donzela guerreira não era uma necessidade, apenas uma imensa vontade de se ver livre do peso divino de ser fêmea.  Sabia que a farsa não duraria muito tempo se deixasse as pessoas chegarem muito perto. O frio deixava o tempo limpo e o céu estava muito azul quando olhou com receio para a rua onde sempre acompanhava suas irmãs nas compras e  festas, sentiu um nó na garganta quando pegou um ônibus para o centro da cidade, onde ninguém o (re) conhec(er)ia.

Não tinha sido seu o estupro, ninguém diria que foi estupro na época em que sua linda irmã apenas um ano mais nova se casou com o filho de um rico comerciante para calar a boca maldosa de rivais invejosas, que a difamaram por ser linda e ter vários pretendentes apaixonados. Seus pais preferiram acabar com a possibilidade de Beliz não se casar com o que havia de mais rico, já que ela se mostrava apaixonada por um jovem primo distante cuja família tinha a mesma condição financeira que a sua. Ver Beliz chorar e sangrar e chorar por saber que teria um filho saindo de suas entranhas e chorar por apanhar por ser bela e chorar por não ter qualquer defesa e chorar. E ver sua mãe chorar por saber que a filha perdera a inocência por culpa da maldade alheia sem ter forças para defendê-la, ver a irmã mais velha chorar por se achar rejeitada por ser gorda e ver os homens sorrindo livres, gordos, intocados…. Decididamente não queria chorar.  Seria mais  forte do que qualquer homem comum, pois seria um homem à força.

Lia Drumond Contos

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