A diferença entre brigar e lutar

1, julho, 2010

Certo dia, Fefê discordou da opinião de Lalá num fórum e investigou de leve sobre o mesmo. Fefê descobriu que Lalá se tratava de uma pessoa educada numa renomada instituição onde apenas pessoas ricas frequentavam, que era de tal religião e tinha passado por  dois divórcios, sem filhos. Fefê resolveu escrever uma resposta no fórum que, em vez de expressar argumentos contrários à opinião de Lalá, sobre o assunto do qual discordara, lançou comentários jocosos sobre a vida de Lalá como forma de justificar a ‘errônea’ opinião do mesmo.

Lalá ficou puto da vida quando leu o que o Fefê tinha dito sobre o que ele escrevera e, principalmente, sobre os motivos que o fizeram escrever aquilo. Achou um absurdo o Fefê divulgar que ele defendia a causa por ser de tal religião e não ter filhos. Lalá resolveu investigar um pouco sobre o Fefê e descobriu que era um homem de estatura baixa e que sempre usara bigode, casado pela segunda vez e que tinha três filhos, se dizia agnóstico e gostava de escrever para falar mal sobre eventos sociais. Lalá resolveu que escreveria algo contra a opinião de Fefê, mas acabou embasando sua escrita em argumentos tão baixos quanto os de Fefê, dizendo que este tinha complexo de inferioridade e vivia no caos da rotina de classe média que só poderia fomentar mediocridades.

Fefê quase comeu os pentelhos do rabo tanta era a raiva que sentia quando leu o que o Lalá escrevera sobre o fato de ele ter discordado de sua opinião. Tomou-o então por inimigo pessoal, mesmo sem nunca terem falado pessoalmente. Fefê resolveu investigar e acompanhar o que Lalá fazia e atacá-lo sempre que via uma oportunidade. Lalá, por sua vez, fazia o mesmo e ambos sentiam muita raiva mesmo um do outro, metiam o pau para os amigos e estes colocavam lenha na fogueira afinal, no dos outros, é refresco…

O artigo inicial sobre o qual discordaram foi esquecido. Por princípio, um passou a discordar do outro sobre tudo, de maneira irracional, só para ter um motivo para ataque e os argumentos apresentados para as opiniões divergentes sempre eram embasados nas particularidades das pessoas, raramente em fatos.  Um espetáculo circense para quem admira a violência gratuita, a intolerância, o mundo cão. E seguiram por anos assim, ridículos, sem nunca se conhecerem de verdade, se atacando como cães que não sabem conversar e tão mergulhados na vaidade que me cansaram de escrever esse conto… Quero é que Fefê e Lalá se fodam. A diferença entre brigar e lutar é que briga é por qualquer coisa, a luta sempre é por algo.

Lia Drumond Contos

Obediência

22, junho, 2010

(uma breve pesquisa que fiz há alguns anos…)

Estudando conceitos da sociologia e conhecendo um pouco da história da humanidade, é fácil pensar em questões para se discutir a realidade. Questões afloram em cada canto da desigualdade, mas poucas são as respostas. Abaixo, alguns conceitos sobre a obediência e desobediência.

Excerto I

“Porque o homem é tão propenso a obedecer e porque lhe é tão difícil desobedecer? Desde que eu seja obediente ao poder do Estado, da Igreja ou da opinião pública, sinto-me seguro e protegido. De fato, pouca diferença faz o poder a que obedeço. Trata-se sempre de uma instituição ou de homens que usam a força, de uma forma ou de outra, e que fraudulentamente reivindicam para si a onisciência e a onipotência. Minha obediência me torna parte do poder que cultuo e, por conseguinte, sinto-me forte. É impossível que eu cometa erros, pois ele decide por mim; é impossível que eu fique só, pois ele vela por mim; é impossível que eu cometa um pecado, pois ele não me permite fazê-lo e, ainda que eu peque, a punição será apenas a maneira de voltar a submeter-me ao poder todo-poderoso.” (FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. p14-15.)

Excerto II

“O problema com as emoções é que elas não são facilmente controladas pela razão; é geralmente bastante inútil tentar livrar-se de sentimentos como a aversão, o ódio ou a luxúria somente a partir de raciocínios. As emoções precisam ser controladas de uma maneira diferente, sendo treinadas por um longo período de tempo, preferivelmente desde a infância. A filosofia moral de Aristóteles é notável pela atenção que dá à eficiência do treinamento moral e à ineficiência da mera discussão moral. ‘Se os argumentos fossem suficientes por si sós para fazer os homens serem bons, eles teriam amealhado muitas recompensas’(aqui fala o próprio Aristóteles); ‘mas como as coisas são, eles(os argumentos) não são capazes de encorajar muitas pessoas a se tornarem dignas’. Os homens devem ser bem treinados e habituados, sob a orientação das leis, costumes, educação e disciplina da família. ‘Não faz alguma diferença, então, se formamos hábitos bons ou maus em prol de nossa juventude; faz muita diferença, ou melhor ainda, toda a diferença.”(The Cambridge Companion to Aristotle. New York: Cambridge University Press, 1996. 2° edition. página 213)

Excerto III

“Um indivíduo incapaz de fazer parte da polis não é um ser humano, mas sim um animal não-humano, enquanto que aquele que basta a si mesmo completamente, sem ter necessidade de fazer parte da polis, é um superhumano, ou, como Aristóteles assim diz, um deus.”(The Cambridge Companion to Aristotle. New York: Cambridge University Press, 1996. 2° edition. página 239)

É mais fácil obedecer do que desobedecer. Mas, qual a razão? Por que é mais fácil obedecer?

Obedecer é a regra do nosso sistema. E por sistema, entende-se toda a organização política -econômica- social-cultural-religiosa, criada e apoiada pela parcela dominante da sociedade, com a finalidade de fomentar cada vez mais a produtividade, aprofundando a dependência dos indivíduos à divisão social do trabalho(*), e segmentando valores que impedem uma inversão da lógica de obediência.

É mais fácil obedecer, porque sendo esta a regra do sistema, a obediência não traz ao indivíduo nenhum prejuízo. Pode até trazer-lhe benefícios, na medida em que um indivíduo se destaque na função de exortar seus pares à obediência. Outro motivo é a moral. A virtude tem sido identificada pelas religiões ao lado da obediência, enquanto que o pecado está sempre ao lado da Desobediência (porque será?). Essa Moral está vinculada à Educação, constituindo aquele instrumento de controle sobre o qual Aristóteles tece elogios. E tal educação moral é tão poderosa, que o homem, depois de aprender desde a infância a obedecer, sente medo de desobedecer, de ser, por conseqüência, punido.

Nossa sociedade possui vários elementos que empurram os homens comuns aos abismos da obediência, são eles: o caráter privado das forças de produção, a “educação moral”(a qual consegue convencer a maioria dos homens comuns a serem obedientes), as forças armadas(que tem a função de persuadir qualquer recalcitrante a voltar a seus afazeres e desistir de uma “luta inútil”). As Tradições e as Religiões, juntamente com a Educação(**) formam a tríade principal do Controle Social, pois ensinam os valores da obediência; é importante lembrar que a lógica de tal tríade é baseada no exemplo. A Lei tem mais poder sobre o ser humano do que se pensa, pois ela pode determinar sua prisão, punição, apropriação de bens, exílio e até a pena de morte em muitos países. A Guerra também é um instrumento de controle porque é através dela que múltiplos interesses econômicos são satisfeitos com o custo desprezível de uma porcentagem da população pobre jovem do país.

Os impostos também são um instrumento de controle. Por último, o mais ardiloso de todos, é o instrumento de “Ilusão”: ilusão de voto (fazer parte do governo e poder mudar os rumos do país… será?), ilusão de que o homem comum pode melhorar de condições com trabalho e com a experiência que conquistar, de modo que possa montar seu negócio no momento que lhe for oportuno, e a ilusão de que o pensamento ostentado por cada indivíduo adulto seja próprio e autêntico.

“O homem da organização perdeu a capacidade de desobedecer e nem sequer tem consciência do fato de que obedece. Nesse ponto da história, a capacidade de duvidar, de criticar e de desobedecer talvez seja tudo o que se coloca entre o futuro da humanidade e o término da civilização”. (FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. p.17)

Notas

(*)Quando se fala em aprofundamento da divisão social do trabalho, quer-se dizer que os indivíduos cada vez mais ficarão dependentes das forças produtivas, as quais encontram-se sob o poder das empresas, portanto, fora da esfera de ação dos homens comuns. Em outras palavras, trabalha-se cada vez mais, ganhando cada vez menos, com um número de opções de compra cada vez maior. É o Trabalho Assalariado e o Consumismo.

(**)A Educação de hoje caracteriza-se por seu caráter profissionalizante, o que retrata a dedicação da sociedade à produção, e pela moral, mas não apenas no sentido religioso, mas principalmente no aprendizado de valores de obediência, honestidade, confiança nas instituições públicas, no voto, nas liberdades civis, e, por último, na existência de comida, dinheiro e trabalho suficiente para todos os homens comuns, desde que se devotem a uma vida de trabalho duro(será?).

Lia Drumond Brisas, Livros ,

Isolamento

14, junho, 2010

Pega nada, não. E entendo a identificação com eles que de tanto olhar, cansaram do que viam. Por que a redundância só não cansa quem está aprendendo. O professor, depois de suficiente tempo de prática, sabe nas primeiras conversas quem é capaz de aprender e quem sempre vai ignorar, e cansa saber que não é possivel livrar-se dos imbecis, que para eles é preciso gastar mais do que saliva e boa vontade. E ainda sempre tem um idiota pra esfregar na cara a demagogia de quem um bom mestre é capaz de despertar o interesse. Assim como sempre tem um espírito de porco para lembrar ao discípulo que seu progresso é somente resultado de seu esforço.

Então o jovem e inspirado idealista se transforma no velho ranzinza insuportável, talvez até precocemente. Nâo demora para cansar a vida e o mundo mudar o sujeito que queria mudar o mundo. Será que existe perceber que só muda quem quer mudar? Se existe, o depois pode ser mais isolado ainda. Quem não consegue mudar o mundo nem ser mudado por ele pode criar um mundo paralelo e é considerado louco. Não é por nada, não. Não é por ser melhor, mais qualquer coisa, (in)diferente. Algumas vezes a similaridade até dói, mas uns conseguem ser mais distantes que outros e esses são menos aflitos. Enquanto outros precisam fugir para não sentirem-se sufocados pela empatia…

Música, então… Livin’ on the edge – Aerosmith

Lia Drumond É com a Lia ,

Vai vendo…

11, junho, 2010

Procrastinar a obrigação de estar realmente presente, pensar noutro lugar, não querer ali estar. Toda estupidez e perguntas retóricas para confirmar o redundante e estúpido óbvio. Não há como fugir, quando não se pode demonstrar o quanto se incomoda com a mediocridade o jeito é ativar o modo imbecil e causar risada para a triste realidade de horas que se arrastam em reuniões prolixas. O tempo é dinheiro para eles, o tempo é valor que dinheiro nenhum vai pagar pra mim. Prefiro perder tempo a gastá-lo com coisas idiotas. Mas é o que há, realidade madura, retardamento senil na responsabilidade. O mais difícil é não deixar isso afetar o humor da minha explosiva despersonalidade.

Música pra sexxxxta:  Pork and beans – Weezer

Lia Drumond Brisas

O livro do cemitério

31, maio, 2010

Ok, eu já falei sobre este livro aqui, mas hoje me deparei com a versão em português na livraria e não resisti: tem muita gente que vou fazer ler mais esse…

Foo dessa segunda rotten? Cheer up, boys!

Lia Drumond Brisas, Livros

Ode à insegurança

30, maio, 2010

 Não és bom quanto esperavam que fosse, nem ruim quanto gostaria
A personalidade defensiva e comportamento combativo, está cego
O amor se tornou ódio pois se amar você não concebe, odiar consegue
Já que seu amor é prêmio de consolação e você não ama como poderia

Sua alegria não está mais com você, é toda dela
A vida esqueceu de te mostrar que ainda pode ser bela

Em busca de um pouco de vingança, nem que seja só um pouco
Apesar de toda teoria e prática, traição é ir contra sua própria vontade
Além do que se espera de quem diz não temer enxergar a verdade
Talvez belo seja o fim que nunca chega na sua insegurança de louco

Ao som de: The view from the afternoon – Arctic Monkeys

Lia Drumond Versos

Várias verdades, várias éticas?

23, maio, 2010

Talvez ponto de vista defina cada verdade. O que era alto para o baixo, era baixo para o alto e por aí vai. Parece óbvio não ser possível haver apenas uma verdade, mas será possível haver duas éticas? Por exemplo:  propaganda enganosa é, na verdade, um chamado ao questionamento? Quer dizer, se o sujeito acredita no que um vendedor lhe diz sobre um produto que precisa adquirir e só depois se descobre lesado, ele deve assumir que a culpa é sua por não ter desconfiado sempre, por ter acreditado no que o vendedor lhe dizia sobre o produto? Até que ponto a culpa é passiva? Se o vendedor disser que o produto tem tal garantia e, depois de comprar, o consumidor descobrir que nunca existiu, é  óbvio que houve falta de ética por parte do vendedor.

Ética e verdade são coisas que nem sempre andam juntas. Existe gente verdadeiramente sem ética e que não se importa em admitir ao que veio, há quem seja eticamente verdadeiro, mas ser ético e ser verdadeiro, as duas coisas juntas e simultaneamente, aí é que são outras. Pode-se desculpar a falta de ética e/ou de verdade pela urgência de se sobreviver, mas é errar com o princípio da sobrevivência. Quem é, é  vivendo ou morrendo, as pessoas não ficam mais éticas ou menos verdadeiras. O que realmente impera é a demagogia. A verdade é que dói se assumir, sair do armário dos bons  moços e admitir que fez cagada, que precisava vender e então inventou uma garantia pra melhorar o ‘podruto’. Aí culpa-se o comprador por não saber tudo antes, por não pesquisar, por não conhecer as diferentes verdades que, motivadas por diferentes necessidades, reinventam a ética.

Música do Foo, pra variar (será que eles vêm esse ano?): Let it die

Lia Drumond Brisas

Junie

17, maio, 2010

Ele, era do sexo masculino agora e então vai. Andar de um jeito bruto e fazer um olhar meio fechado, uma cara meio sacana para dar um ar de segurança, ‘eu sou o cara!’ – pensou. E forçou uma risadinha meio torta enquanto ajeitava a franja para o lado. Andava sob o Sol frio de jeans, camiseta azul, tênis e mochila ‘black hole’. Buraco negro, o que queria dizer com o nome pelo qual tinha batizado e rabiscado pela sua mochila, significava que tudo o que ele colocava ali se perdia. Era realmente uma mochila cheia de coisas… E sob o Sol ele ensaiava seus primeiros passos de homem rumo ao desconhecido terreno da maturidade. Ainda que fosse uma mulher, ela queria ser o cara. Reinventar a donzela guerreira não era uma necessidade, apenas uma imensa vontade de se ver livre do peso divino de ser fêmea.  Sabia que a farsa não duraria muito tempo se deixasse as pessoas chegarem muito perto. O frio deixava o tempo limpo e o céu estava muito azul quando olhou com receio para a rua onde sempre acompanhava suas irmãs nas compras e  festas, sentiu um nó na garganta quando pegou um ônibus para o centro da cidade, onde ninguém o (re) conhec(er)ia.

Não tinha sido seu o estupro, ninguém diria que foi estupro na época em que sua linda irmã apenas um ano mais nova se casou com o filho de um rico comerciante para calar a boca maldosa de rivais invejosas, que a difamaram por ser linda e ter vários pretendentes apaixonados. Seus pais preferiram acabar com a possibilidade de Beliz não se casar com o que havia de mais rico, já que ela se mostrava apaixonada por um jovem primo distante cuja família tinha a mesma condição financeira que a sua. Ver Beliz chorar e sangrar e chorar por saber que teria um filho saindo de suas entranhas e chorar por apanhar por ser bela e chorar por não ter qualquer defesa e chorar. E ver sua mãe chorar por saber que a filha perdera a inocência por culpa da maldade alheia sem ter forças para defendê-la, ver a irmã mais velha chorar por se achar rejeitada por ser gorda e ver os homens sorrindo livres, gordos, intocados…. Decididamente não queria chorar.  Seria mais  forte do que qualquer homem comum, pois seria um homem à força.

Lia Drumond Contos

Do Alvorecer

13, maio, 2010

Tarde para entender o que passou, cedo para esperar pelo que virá
Todo dia acaba um dia e querer nem sempre será
Vida daqui, morte acolá, tudo o que sobe tende a voltar
Sua toda e apologia ou nostalgia do que não mostrar
Quem revela os segredos todos mentirosos
E se esconde na luz dos amores incendiosos
Poder de viver, amar e morrer, continuar
Saber ceder sem precisar se rebaixar
Compartilha sua grandeza quando sorri
Não parte da esperança do que sofri

Lia Drumond Uncategorized, Versos

Ser matriz

9, maio, 2010

Mãe, a minha é igual a todas as melhores mães do mundo, espero ser como ela para meu filho. Ser mãe é coisa boa, normal, saudável. Ter filhos não significa gerá-los, necessariamente. Sempre digo que é o cuidar, o dia-a-dia que faz o amor crescer, se eu amei seu primeiro choro e chorei junto descobrindo o maior medo da minha vida, muitos outros choros vieram depois para me fazer sorrir, chorar, enlouquecer, aprender. Agora seu choro é mais raro, mais intencional e importante. E já é um menino, está deixando de ser um bebê e começa a testar limites para ver onde pode o quê. E, às vezes, sou ‘vrava’ pra ele entender que não é legal ser intransigente, em outras sou moleque pra ele ter com quem brincar à noite.

Sinto um pouco de ciúmes e muito orgulho por ele ser tão amado… Todo mundo quer ser  mãe dele. Inspira vida, já ouvi de várias mulheres que depois conhecerem meu filho sentiram muita vontade de ter um delas. Sua doçura, seu jeito esperto e cheio de graça, seu charme de se fazer de difícil nos primeiros 5 minutos, sua tagarelice. Ele é tão tudo que eu não seria nada… O maior presente de dia das mães que qualquer mãe quer é apenas a certeza de que seu filho é feliz. E mães vivem para isso.

Américo Abril 2010

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